terça-feira, 24 de agosto de 2010

Aquecimento Global: Mito ou Verdade Baseada em Evidência?


Em medicina são comuns os exemplos de crenças não baseadas em ciência, o que podemos chamar de mitos. Estes mitos existem, pois temos uma forte tendência em acreditar no que nos agrada. Muitas vezes é a lógica do plausível que nos faz comprar uma idéia patrocinada pela indústria farmacêutica, porém sem comprovação definitiva. Outras vezes, é a mentalidade do medico ativo que nos faz comprar a idéia de realizar exames em demasia ou indicar tratamentos desnecessários. Não porque sabemos que o tratamento é bom, mas porque nos sentimos melhores médicos quando tomamos uma atitude ativa ao invés de uma atitude expectante.

Outras vezes, o mito se sustenta no que parece ser politicamente correto. Por exemplo, é politicamente correto afirmar categoricamente o benefício da mamografia em mulheres com menos de 50 anos (mesmo que isso não reduza mortalidade e gere complicações desnecessárias) ou até mesmo considerar homeopatia como uma terapia eficaz. Preferimos ser vistos como pessoas de mente aberta e evitar o rótulo de céticos, mesmo que haja evidências definitivas de que homeopatia tem apenas efeito placebo. Evidências parecem não importar tanto, o que mais importa é a aparência do pensamento.

Estava evidente que Dunga ia enterrar o Brasil na Copa, mas a gente acreditou no time até o final. Mesmo depois de um vergonhoso 0 x 0 contra Portugal, achávamos que o Brasil ia aflorar na hora H, que Cacá ia passar a jogar bem na hora que precisasse, que Luiz Fabiano equivalia ao Ronaldo Fenômeno do passado. Nem de longe.

Um dos mais claros exemplos na crença do politicamente correto é o fenômeno incontestável do aquecimento global. Ao contrário do que muitos pensam, esse não é um fenômeno incontestável. O problema é que se alguém disser isso, pode ser visto como louco. Por outro lado, se alguém levantar essa bandeira pode até ganhar o Oscar e o Prêmio Nobel da Paz de uma só vez.

Apesar do Jornal A Tarde de ontem ter publicado uma entrevista não embasada em evidência a favor da homeopatia (agradando os leitores), este teve a coragem de publicar uma reportagem com base científica, alertando que o aquecimento global não é algo cientificamente definido. Apesar de leigo no assunto, tenho um forte pressentimento de que essa história de aquecimento global é muito semelhante a situações médicas tidas como verdade com base apenas do seu forte apelo psicológico.

Fazendo uma pesquisa rápida, percebemos nitidamente que do ponto de vista científico há evidências tanto a favor, como contra o aquecimento global. Posso parecer politicamente incorreto, mas acho que poderíamos ter pensamentos mais ponderados e menos sensacionalistas. Porque quando vemos uma imagem de um iceberg derretendo achamos que o mundo está aquecendo, mas quando vemos o inverno mais frio do século na Europa não achamos que o mundo está esfriando? Seria o mesmo raciocínio lógico, mas o primeiro parece ser mais engajado, mais politicamente correto. E ainda me vêem com a desculpa de que o inverno foi o mais frio, só porque o verão foi mais quente. Que lógica é essa? É vingança que o inverno está fazendo com o verão?

Segundo o Dr. Luiz Molion, representante da América Latina na Organização Meteorológica Mundial, os cientistas favoráveis ao aquecimento global conseguem mais financiamento para pesquisa do que aqueles que questionam essa hipótese. Percebam o viés que existe neste teste de hipótese. É o viés de financiamento.



A climatologista Juliana Ramalho afirma em A Tarde que não é verdade que a terra toda está aquecendo, há partes aquecendo e outras esfriando. O fenômeno não é universal, ou seja, não é global. O problema é que só olham para os lugares que estão aquecendo e desconsideram os outros.
Há evidências de aquecimento global em Saturno. Isso sugere que nada tem a ver com poluição criada pelo homem. A mudança de clima em um planeta é algo natural e sazonal. O fato de que existe ao mesmo tempo poluição e aquecimento, não quer dizer que a relação entre os dois é causal. Associação não é sinômino de causalidade, isso é um preceito científico básico.


Quanto às evidências a favor do aquecimento global, sugiro que assistam ao filme de Al Gore, é bem feito e convincente, mas o próprio reconhece que não é uma questão cientificamente fechada.


Assisti recentemente ao filme da HBO sobre Jack Kervokian, "You Don't Know Jack." Mostra um médico (excêntrico, é verdade) que tinha a intenção primária de ajudar pacientes que estavam sofrendo e que queriam morrer. Ele não fez o mal, mas descumpriu a lei. Quem descumpre a lei deve ser preso e ele foi. Mas isso não dizer que ele era um monstro. Mas na época a escolha da imprensa foi o caracterizar como monstro. Isso parecia politicamente correto. O povo americano adora o politicamente correto.


Porque ninguém comenta que é estranho andar de skate de noite, dentro de um túnel feito para carros, em pleno Rio de Janeiro? Se estava interditado, não deveria ter carros, mas também não deveria ter skate. Mas seria politicamente incorreto falar isso em um momento trágico como esse?


No raciocínio clínico, precisamos nos policiar para que o apelo do politicamente correto não nos leve a crenças que resultem em decisões médicas inadequadas. Precisamos discutir mais nossa forma de construir idéias. O fenômeno do aquecimento global nos mostra que não são apenas os médicos que se esquecem do paradigma baseado em evidências. Essa é uma característica intrínseca do ser humano. Adotar pensamentos mágicos faz parte da história da humanidade.


Não quero dizer com isso que não há aquecimento global. Por outro lado, não podemos desconsiderar evidências contra esse fenômeno e só considerar as evidências a favor. Temos que avaliar a totalidade das evidências. E a totalidade das evidências não fecha a questão. Essa é a resposta verdadeira. Não sabemos. Devemos evitar o oportunismo do politicamente correto.

12 comentários:

  1. Luiz, em qualquer raciocínio, penso eu, devemos evitar o politicamente correto pelo politicamente correto. Se não conseguirmos extrair nossas conclusões do que as evidências nos mostram e ou do que existe por trás destas evidências, se não procurarmos informações suficientes para tomar juízo, muito pouco valor terá este juízo ou pior terá viés errado e poderá, portanto ter conseqüências danosas.
    Como demonstrei em algum lugar ir com a manada é seguro, porém não existe desafio, ora bolas, é por isso que muitas vezes prefiro ser politicamente incorreto!
    Um Grande abraço.
    Daniel

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  2. Concluímos uma pesquisa - Região da grande vitória (ES)- voltada ao estudo da percepção ambietrnal da sociedade frente à problema´tica das Mudanças Climáticas. Iniciamos outra - esta em âmbito estadual - que visa conhecer o perfil da percepção ambiental do produtor rural do Estado do Espírito Santo.
    Núcleo de estudos em Percepção Ambiental / NEPA
    roosevelt@ebrnet.com.br

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  3. Luís, muito bom!
    Concordo com todos os argumentos que você colocou e faria apenas algumas considerações sem pretensões conclusivas.
    Sobre a "epidemia" do aquecimento global, afora o enjoativo politicamente correto, paira veladamente uma justificativa no mínimo excêntrica: isso aparentemente está entrando na mente das pessoas e fazendo com que se preocupem com a poluição.
    Sabemos que a poluição é danosa (inclusive do ponto de vista cardiovascular). Se tornar-se verdade que as pessoas reduzam a poluição, podemos entrar quse em um silogismo resultando na melhora da saúde das pessoas.
    Moralmente, esbarramos na velha história dos fins justificando os meios, mas essa afirmação também não seria "politicamente correta" demais?
    O que é certo, e seu texto é magistral nesse sentido, é que devemos ter cuidado com as informações que nos chegam. Temos que saber o que é produzido (exige busca de informação), identificar e processar adequadamente as evidências (exige uma boa formação) e, talvez mais importante, aplicar os conhecimenotos (talvez aí entre o velho bom-senso).
    Duas breves considerações sobre os outros fatos relatados.
    As leis derivam da moral do local em que se aplicam. Ou ao menos assim deveria ser sempre. Também vi o filme recentemente. Baseando-me nas informações apresentadas no filme, o julgamento moral parece-me motivo de grande controvérsia no caso condenatório. Foram necessárias manobras jurídicas que impediram a contextualização do caso, impedindo o testemunho dos familiares em um movimento de um "tecnicismo" suspeito.
    Concordo que ao crime deve haver a punição, mas não necessariamente cadeia, ainda mais em um pedíodo tão longo. Foi condenado como homicida, o que achei absurdo. A morte do paciente precisaria ser contextualizada adequadamente. Cassaram-no o registro, caçaram-no moralmente pela mídia e o afastaram da sociedade por estar "dando muita dor de cabeça". Essa foi minha impressão. Acho quejá vivi o suficiente para desconfiar da imparcialidade de quem quer que seja, especialmente no sistema judiciário. Que o condenassem por eutanásia por exemplo, certamente um mal menor que o homicídio puro...
    Quanto ao caso do atropelamento no túnel, concordo novamente com você. Entretanto, creio que o maior dano social desse fato está exposto no culto à celebridade. Sintomático o minuto de silêncio no jogo do Flamengo com o narrador lamentando a morte do "filho da Ciça Guimarães". Poucos sequer sabiam o nome do rapaz. Parecia-me que a importância de sua morte estava ligada ao papel da mãe na sociedade (estilo "você sabe com quem está falando?" dos poderosos nacionais), considerando a importância da "celebritite" que assola o mundo.
    Bom, vou parar de "chover no molhado". Você sabe disso tudo com muito mais propriedade.
    Grande abraço.
    Parabéns pelos textos, foram uma excelente surpresa inteligente no mundo amorfo da Internet.

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  4. Sempre tive minhas dúvidas sobre as evidencias científicas nas quais estariam baseadas o aquecimento global. Parabens pela análise.

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  5. Atrasado, mas comentado. Muito bom post.
    Aqui o link da entrevista de Dr. Luiz Molion na Band:
    http://www.youtube.com/watch?v=JxC_JIwat9s&feature=related

    Abraço

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  6. Existe um lobby por trás do Dr. Molion...

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  7. Infelizmente vejo um blog tão bom incentivar a ignorância num ponto científico tão bem estabelecido:

    "97% of climate scientists agree" o aquecimento global por razões antropogênicas...

    http://climate.nasa.gov/scientific-consensus/

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  8. O reconhecimento da "ignorância" é a peça essencial do pensamento científico. O bom cientista é aquele que faz boas perguntas, não aquele que acredita ter todas as respostas.

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  9. Luis, peço a gentileza de imaginares um cenário onde um especialista em climatologia recorre a importância da ignorância no pensamento científico para alegar que exercícios físicos não possuem um papel relevante na prevenção de diversas doenças coronárias.

    Não querendo ser agressivo nesta analogia, mas bastaria ao nosso hipotético climatologista realizar uma breve revisão na literatura científica para se prevenir de cometer tal impropério, ainda mais quando lembra que grande parte do nosso público não possui a mínima noção de como o método científico funciona,

    O que gostaria de lhe solicitar Luiz, principalmente pela inteligência e conhecimento que possues, que realizes uma breve avaliação da literatura científica e se informe acerca do posicionamento de virtualmente todas as agências climatológicas do mundo frente ao aquecimento global por razões antropogênicas.

    A não ser por uma grande conspiração (que também poderia ser utilizada no meu primeiro exemplo), e baseado apenas nos estudos que temos hoje, o aquecimento global por razões antropogênicas está fartamente evidenciado.

    De qualquer forma continuarei a usufruir da leitura dos seus posts, sou fã e leitor feroz do seu blog, onde aprendo muito, e não importunarei mais com esse assunto, mas confesso que tenho a esperança de um novo post seu depois de uma nova revisão das evidências acerca do aquecimento.

    Abraço,

    Ramon

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  10. Ramon,

    você poderia me enviar as evidências de melhor qualidade que existem. Gostaria de analisar. Vamos nos comunicar pelo email estatisticamed@gmail.com. Obrigado pela interação científica.

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  11. Luis, o senhor mudou ou não de opinião a respeito do tema aquecimento global?

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