Ao longo destes dois anos de Blog, 137 postagens, temos realizado análise de relevantes publicações científicas, utilizando conceitos de medicina baseada em evidências. Nesta postagem, descreverei os conceitos que devem nortear a formação de opinião a respeito de determinada evidência. Chamo isso dos Sete Princípios da Medicina Baseada em Evidências.
Gosto de chamar de princípios, pois assim nos remetemos aos princípios humanos universais
que devem (ou deveriam) nortear os indivíduos no comportamento social e pessoal. Por exemplo, ninguém discorda do princípio da honestidade. Ele
simplesmente existe e em momento de decisão, idealmente deve nos
influenciar. Assim deve funcionar com medicina, princípios devem
nortear nossa decisão clínica baseada em evidências.
Ao contrários de princípios humanos que
fazem parte do inconsciente coletivo e são intuitivos, os princípios médico-científicos são absorvidos pelo entendimento profundo do sistema biológico (sistema
complexo, imprevisível) e da metodologia científica. Muitas vezes a falta de
entendimento destes princípios fazem com que uma evidência científica seja
encarada de forma inadaquada ou até mesmo a própria existência da medicina baseada em evidências seja
interpretada de forma equivocada.
Mas porque sete princípios? Não sei, simplesmente ao organizar
meu pensamento, vieram sete princípios mais importantes em minha mente. Se o número sete tem algum significado
adicional, não sei. Uma rápida pesquisa no Google me lembrou que sete são as
notas musicais, as cores do arco-iris, os dias da semana, os pecados capitais e ainda tem escrito
que sete é o número da perfeição de acordo com a Bíblia. Interessante ...
Nesta postagem falaremos dos três
primeiros princípios.
Princípio 1: O Nível de Evidência – Toda
evidência deve passar por uma análise crítica, que indique qual o grau de
veracidade e relevância da informação. A depender desta análise, chegamos à
conclusão de que o nível de evidência é suficiente para (1) modificar nossa
conduta, (2) apenas para gerar uma hipótese, ou (3) não serve para nada. Já
ouvi algumas pessoas dizerem: “a maioria das evidências não é verdadeira,
portanto não podemos fazer medicina baseada em evidências.” Percebam o
equívoco. Medicina baseada em evidências existe exatamente para nos trazer
ferramentas que resolvam esta questão, separando o joio do trigo, identificando
dentre uma infinidade de publicações, quais as evidências modificadoras de
conduta. A depender do objetivo do trabalho científico (avaliar eficácia de
terapia, acurácia de método diagnóstico ou valor prognóstico de marcadores de
risco), há diferentes aspectos a serem analisados no artigo científico,
aspectos estes que procuramos descrever neste Blog. Médicos precisam desenvolver conhecimento metodológico para analisar evidências. Assim como
treinamos exame clínico, precisamos treinar exame de evidências.
Assim, o termo medicina baseada em evidências na verdade quer dizer medicina baseada em evidências científicas de qualidade. Parece uma coisa óbvia, porém percebo que muitos
esquecem deste princípio básico.
Princípio 2: A Hipótese Nula – Este é
princípio se aplica a ciência em geral. Um fenômeno não deve ser considerado
verdadeiro antes de sua demonstração. O conhecimento científico se constrói com
base na demonstração da veracidade de um fenômeno. Desta forma, a premissa
básica é a hipótese nula, que indica que o fenômeno não é verdadeiro. De posse
desta premissa, o cientista realiza experimentos (estudos metodologicamente
adequados) que se demonstrarem forte grau de evidência positiva, a hipótese
nula é rejeitada e ficamos com a hipótese da existência do fenômeno (hipótese alternativa).
Se formos refletir um pouco, perceberemos que é assim que pensamos no cotidiano. Por exemplo, a maioria não acredita em disco voador. Por que não acreditar? Porque simplesmente a hipótese nula é a premissa básica, ou seja, não existe disco voador. No dia em que alguém demonstrar um forte nível de evidência a este respeito, passaremos a acreditar. Muitos dizem que acreditam em horóscopo. Mas no fundo não acreditam, usam isso apenas como uma atividade lúdica. Digo que não acreditam pois a maioria não norteia as decisões críticas de sua vida baseada nessas coisas. na hora do vamos ver, não é ao horóscopo que as pessoas recorrem. Celular causa câncer de cérebro? A maioria das pessoas acredita que não, pois todo mundo está usando celular. Isto porque a hipótese nula deve prevalecer, até que se prove o contrário.
Se formos refletir um pouco, perceberemos que é assim que pensamos no cotidiano. Por exemplo, a maioria não acredita em disco voador. Por que não acreditar? Porque simplesmente a hipótese nula é a premissa básica, ou seja, não existe disco voador. No dia em que alguém demonstrar um forte nível de evidência a este respeito, passaremos a acreditar. Muitos dizem que acreditam em horóscopo. Mas no fundo não acreditam, usam isso apenas como uma atividade lúdica. Digo que não acreditam pois a maioria não norteia as decisões críticas de sua vida baseada nessas coisas. na hora do vamos ver, não é ao horóscopo que as pessoas recorrem. Celular causa câncer de cérebro? A maioria das pessoas acredita que não, pois todo mundo está usando celular. Isto porque a hipótese nula deve prevalecer, até que se prove o contrário.
Embora estes exemplos indiquem que
intuitivamente norteamos nossas vidas pelo princípio da hipótese nula,
paradoxalmente este princípio é violado com frequência em medicina. É a
violação deste princípio que faz os médicos adotarem condutas sem evidências
científica de eficácia ou segurança, o que pode prejudicar seus pacientes de diversas formas; ou prejudicar o sistema de saúde; ou distorcer a forma como o conhecimento científico deve ser acumulado.
Com muita frequência, evidências subsequentes demonstram que aquela conduta não deveria ter sido adotada, pois não é benéfica e às vezes é até maléfica. Um grande exemplo foi a adoção da terapia de reposição hormonal na década de 90 para prevenção cardiovascular. Como não havia evidências definitivas (apenas de estudos observacionais), deveríamos ter ficado com a hipótese nula. Ensaios clínicos randomizados subsequentes indicaram exatamente o contrário, ou seja, esta terapia aumenta o risco cardiovascular. Assim ocorre com frequência quando a indústria farmacêutica convence médicos a prescreverem novas drogas baseadas apenas em evidências de desfechos substitutos. Os médicos prescrevem e depois a droga é suspensa do mercado, pois evidências subsequentes mostram que a terapia aumenta a incidência de desfechos clínicos indesejados. São tantos os exemplos, é só revisar um pouco nossas postagens.
Com muita frequência, evidências subsequentes demonstram que aquela conduta não deveria ter sido adotada, pois não é benéfica e às vezes é até maléfica. Um grande exemplo foi a adoção da terapia de reposição hormonal na década de 90 para prevenção cardiovascular. Como não havia evidências definitivas (apenas de estudos observacionais), deveríamos ter ficado com a hipótese nula. Ensaios clínicos randomizados subsequentes indicaram exatamente o contrário, ou seja, esta terapia aumenta o risco cardiovascular. Assim ocorre com frequência quando a indústria farmacêutica convence médicos a prescreverem novas drogas baseadas apenas em evidências de desfechos substitutos. Os médicos prescrevem e depois a droga é suspensa do mercado, pois evidências subsequentes mostram que a terapia aumenta a incidência de desfechos clínicos indesejados. São tantos os exemplos, é só revisar um pouco nossas postagens.
Com procedimentos isto também é
frequente. Um bom exemplo é o hábito (ou melhor, vício) de realizar angioplastia da artéria ocluída no
infarto tardio. Para que abrir uma artéria que irriga um músculo já todo
necrosado? Bem, isso virou hábito (ou melhor, vício), representando mais uma violação da hipótese nula. Anos
depois, foi publicado o ensaio clínico OAT, desenhado para rejeitar a hipótese
nula e demonstrar que a angioplastia seria benéfica. No entanto, o estudo OAT
demonstrou que não há benefício deste procedimento. Porém os entusiastas
continuam violando este princípio, pois ainda ouvimos o argumento de que o "OAT
não é um estudo suficiente para rejeitar a hipótese de que a angioplastia é
benéfica".
Percebem a inversão de valores? Na
verdade, precisamos provar que algo é bom para que seja adotado, e não provar que
é ruim para que não seja adotado. O ônus da prova está na
existência do fenômeno.
Ouço também as pessoas afirmarem que o conhecimento médico muda muito rapidamente, e isto decorre da evolução científica. Hoje pensamos de um jeito, amanhã de outro. Em grande parte, estas mudanças decorrem do fato de que idéias pouco substanciadas são consideradas verdadeiras de forma precipitada. Estas podem ser posteriormente derrubadas por evidências.
Ouço também as pessoas afirmarem que o conhecimento médico muda muito rapidamente, e isto decorre da evolução científica. Hoje pensamos de um jeito, amanhã de outro. Em grande parte, estas mudanças decorrem do fato de que idéias pouco substanciadas são consideradas verdadeiras de forma precipitada. Estas podem ser posteriormente derrubadas por evidências.
Princípio 3: O Paradigma do Para-quedas –
este representa as exceções ao Princípio 2. Na vigência de plausibilidade
extrema, devemos acreditar no fenômeno ou adotar uma conduta médica,
independente de demonstração científica. Para entender o que é plausibilidade
extrema, utilizamos o paradigma do para-quedas. Percebam que para-quedas
representa uma conduta utilizada para reduzir a mortalidade de pessoas que
pulam de uma avião. Neste caso é tão plausível que o para-quedas vai prevenir a
morte, que não se realizou um ensaio clínico randomizado (para-quedas vs. placebo) para comparar o desfecho
morte entre os dois grupos. Seria até anti-ético.
Em medicina, toracotomia em indivíduos
baseado no tórax, drenagem de certos abcessos, marca-passo no bloqueio AV total com
frequência cardíaca muito baixa, troca valvar em jovem com estenose aórtica
crítica, sintomático. Estas são condutas corretamente adotadas sem ensaio clínico
randomizado.
Por outro lado, precisamos ter cuidado com a banalização deste paradigma. Percebo às vezes argumento a favor do uso de condutas, baseada em alguma plausibilidade. Não é isso, plausibilidade extrema é aquilo que se assemelha ao exemplo do para-quedas, algo que indubitavelmente deve ser feito. Algo que seria enti-ético deixar de fazer.
Por outro lado, precisamos ter cuidado com a banalização deste paradigma. Percebo às vezes argumento a favor do uso de condutas, baseada em alguma plausibilidade. Não é isso, plausibilidade extrema é aquilo que se assemelha ao exemplo do para-quedas, algo que indubitavelmente deve ser feito. Algo que seria enti-ético deixar de fazer.
É um risco fazermos algo apenas beseado em
plausibilidade menor que extrema. Estamos repletos de exemplos em medicina de
que isto não dá muito certo. A terapia de reposição hormonal tinha uma certa
plausibilidade de ser benéfica; antiarrítmicos que antes se acreditava prevenir morte súbita, depois demonstraram aumentar morte súbita; drogas inotrópicas positivas
(vesnarrinone) são maléficas em pacientes com insuficiência cardíaca, apenas de
parecer bom aumentar a contratilidade. E por aí vai, os exemplos são inúmeros.
Mas quando nos deparamos com
plausibilidade extrema, aí não temos dúvida, devemos adotar a conduta. E esse
julgamento que torna a medicina baseada em evidências interessante, pois cabe sempre
ao médico dissernir em que situação ela está: plausibilidade extrema ou não?
Percebam que fica mais fácil decidir baseado em princípios do
que baseado em emoção, interesses ou coisas do tipo. Na dúvida, devemos
recorrer aos princípios e a conclusão parece vir naturalmente. Assim termos norteado as postagens deste Blog.
Na postagem seguinte, apresentaremos os quatro demais princípios. Por enquanto, deixo a reflexão de que o conhecimento médico-científico deve ser construído por evidências de qualidade (Princípio 1), que sejam suficientes para rejeitar a hipótese nula (Princípio 2), exceto em situações de plausibilidade extrema (Princípio 3).
Parece óbvio, não? Mas o problema é que o absurdo frequentemente prevalece sobre o óbvio.
Na postagem seguinte, apresentaremos os quatro demais princípios. Por enquanto, deixo a reflexão de que o conhecimento médico-científico deve ser construído por evidências de qualidade (Princípio 1), que sejam suficientes para rejeitar a hipótese nula (Princípio 2), exceto em situações de plausibilidade extrema (Princípio 3).
Parece óbvio, não? Mas o problema é que o absurdo frequentemente prevalece sobre o óbvio.




