Canais de Luis Correia

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Vídeo: O Conceito de Economia Clínica



Neste vídeo, conversamos com o Prof. Franz Porzsolt, criador do conceito de "clinical economics" como parte essencial do raciocínio médico embasado em evidências. Este conceito não se refere à questão monetária, mas utiliza a palavra "economia" em seu significado amplo. Assistam ao vídeo para entender. 

Franz é professor da Universidade de Ulm na Alemanha e criador do Institute of Clinical Economics

Esta entrevista foi gravada durante o nosso Workshop de Pensamento Médico Baseado em Evidências, promovido pela Universidade Federal Fluminense.




Abaixo do vídeo a transcrição traduzida para o português, feita por Dr. Felipe Ferreira. 


LC: Franz, seu conceito de Economia Clínica referente a valor é muito interessante, acredito que seja muito importante para os Clínicos. Então, nos explique o que é pensamento de Economia Clínica, e talvez o que é a própria Economia.

FP: Na verdade, isso começou na minha antiga profissão quando eu trabalhava como médico e oncologista. Por alguns momentos eu estava muito preocupado se os efeitos colaterais e o fardo do nosso tratamento oncológico estava realmente equilibrando os benefícios que os pacientes recebiam. Então eu estava pensando sobre a necessidade de análises que comparassem o que nós precisamos investir e o que recebemos em retorno. E fazendo essas considerações, eu me deparei dentro de uma análise econômica que é nada além do que uma comparação de custos, e não são custos monetários. É tudo que nós temos que renunciar. E no outro lado as consequências, isso é, tudo o que nós recebemos, e o que é importante numa análise econômica completa é que você compara custos e consequências de formas alternativas de agir.

LC: Então por exemplo para um paciente, como eu acabei de escrever no blog, quando analisamos o STICH trial, no qual o paciente é candidato para uma cirurgia cardíaca, uma cirurgia cardíaca de alto risco, visto que os pacientes têm insuficiência cardíaca grave. Então esse é o custo, o estresse, o estresse físico, a dor, talvez risco de até mesmo morrer nos momentos próximos a cirurgia. E o que os pacientes recebem em troca? Neste caso, o paciente seria recompensado muitos, muitos anos após a cirurgia. Então você investe aqui muita dor para receber algum benefício de sobrevida daqui a 10 anos. Isso deve ser pensado numa forma econômica como você pensa.

FP: Veja bem, nós podemos aprender muito com os economistas. Eles chamam isso de “Discounting”. Quando você tem que ceder, você tem que pagar hoje, mas você somente receberá o valor 10 anos depois, então você tem um valor descontado por um período de 10 anos. Essa é a diferença quando comparado com receber o valor imediatamente, é muito mais recompensador. 

LC: E sobre você como um oncologista, você pode dar um exemplo desta troca econômica?

FP: Eu diria, essa troca é importante em qualquer tratamento oncológico porque muitos desses tratamentos têm efeitos colaterais e riscos, e você deve discutir esses riscos com o seu paciente. Você deve dizer a eles a verdade e você deve saber a dimensão da chance de nós atingirmos o benefício esperado. Você percebe como isso é difícil e como isso está conectado ao outro tema que discutimos anteriormente, se os resultados de um ensaio clínico são realmente verdadeiros. Então como nós podemos comunicar ao paciente os resultados de um ensaio clínico, a menos que você possa ler e detectar os potenciais erros deste Trial. Você percebe? Tudo está conectado a tudo.

LC: Pacientes podem valorizar as coisas de formas diferentes, então você dá o exemplo de um dedo quebrado de um pianista. Você pode discorrer sobre isso?

FP: Sim, você sabe, eu estou usando este exemplo de um dedo quebrado quando é um pianista. Esta é uma situação horrível e ele gastará muito dinheiro para conseguir uma recuperação completa. Quando você tem um advogado com um dedo quebrado isso não é uma catástrofe. Você sabe, ele não será capaz de assinar alguns papéis, mas é somente isso.

LC: Então o pianista poderá assumir um custo de tratamento muito mais elevado porque o que ele está recebendo em troca compensa. Por exemplo, se o tratamento traz muita dor, muitas cirurgias, ele faria isso. Talvez o advogado falaria: “Bem, isso não vale a pena para mim, vamos ficar com o dedo da forma que ele está”.

FP: Exatamente.

LC: Então, é por isso que nós devemos ser guiados por evidências científicas em termos de considerar o que o tratamento nos oferece, mas a nossa decisão final deve ser compartilhada com o paciente, certo?

FP: Sim, os pacientes esperam que nós ajudemos eles a tomar essas decisões. Nós fornecemos a eles que eles esperem ter a liberdade de fazer essas decisões. Mas eles precisam de assistência, e eles precisam de informação para chegar a uma decisão final.

LC: Até drogas ou medicamentos têm um custo. Por exemplo, a terapia de estatina, algumas pessoas dizem “Eu não quero tomar estatina porque posso vir a ter uma dor muscular e eu gosto de correr”. Então é possível haver um custo ou risco nisto. E algumas pessoas podem querer tomar. Não um grande problema, na minha opinião, essa questão muscular, mas algumas pessoas realmente podem não querer, porque elas são corredoras, elas não querem arriscar isto, e para outras pessoas: “Está tudo bem, isso não é um grande problema”. Então até em drogas, você tem custos que devem ser considerados. Existem algumas pessoas que gostariam de evitar drogas, porque são pessoas mais naturais, então para eles é um custo tomar um medicamento.

FP: Claro. E esta é uma dificuldade extrema dos médicos para comunicar os riscos. Imagine, pense no folheto informativo das drogas que vem nas suas caixas, você sabe, do medicamento que você compra numa farmácia. Nele estão todos os tipos de precauções. Quando você informa o paciente de acordo com este folheto, quase nenhum paciente estará apto a tomar essa droga. Você vê, a responsabilidade do médico. Você não pode fornecer qualquer informação que é, você tem que desenvolver um instinto fino, quais são as informações essenciais que você deve fornecer por razões éticas e quais são as informações que induzem mais prejuízo ao paciente do que benefício.

Nenhum comentário:

Postar um comentário