segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Medicina e Fé: há compatibilidade?
A convite do Padre Bento, debateremos a dicotomia entre Fé e Medicina com o Bispo Auxiliar de Salvador, D. Giovanni Crippa.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
A Banalização das Doenças
* Artigo publicado hoje no Jornal A Tarde por Luis Correia
Em meados do
século XX, a evolução tecnológica e científica nos trouxe tratamentos de grande
relevância. Antes disso, a maioria das condutas eram empíricas e inefetivas.
Fazíamos uma medicina que tentava apenas reduzir o sofrimento ou proporcionar a
falsa idéia de que algo benéfico estava sendo utilizado. No início do século
passado, não havia antibióticos, anti-hipertensivos, medicamentos para baixar
colesterol ou marca-passos.
Esta fase foi
seguida de uma grande evolução nos últimos 50 anos, tirando a medicina de um
estágio medieval para uma prática efetiva e embasada em evidências. Neste
contexto, o primeiro ensaio clínico publicado (British Medical Journal) data de 1948, quando se comprovou pela
primeira vez que um antibiótico (estreptomicina) reduzia significativamente a
mortalidade de pacientes com tuberculose, quando comparado ao tratamento
limitado ao repouso. Começava a era da medicina baseada em evidências.
Por outro lado,
no início do século XXI, passamos a experimentar outro fenômeno: a medicalização da população. O principal
mecanismo criador da medicalização
são as novas definições de doença, caracterizadas pela redução dos limites de
referência do que antes considerávamos normal. É comum que a redução destes
limites ocorra sem o devido embasamento científico, sendo mais motivados pelo
afã de prevenir doenças, ou por conflitos de interesses. Isto faz com que, do
dia para a noite, surjam populações inteiras de novos doentes, antes
considerados normais.
Há alguns anos,
diabetes era definido como glicemia de 140 mg/dl, depois esta definição foi
reduzida para 125 mg/dl e agora já se considera que glicemia de 100 mg/dl não é
normal, criando-se o conceito de pré-diabetes. Embora o conceito de
pré-diabetes tenha certo valor, este tem sido inadequadamente utilizado para
justificar uso de medicações, sem base científica suficiente. Temos também o
advento da pré-hipertensão, rótulo que já cabe a pessoas com pressão arterial
de 120 x 80 mmHg. Está cada vez mais difícil ser normal.
A primeira
vista, isto pode ser interpretado como uma conduta cuidadosa, típica do
paradigma preventivo de que é melhor se preocupar antes que o problema se torne
uma questão mais grave. No entanto, esta conduta representa mais uma forma de overdiagnosis. Em paralelo ao
afrouxamento da definição das doenças, a indústria farmacêutica realiza estudos
de má qualidade, que tentam demonstrar benefício do uso de medicamentos nestas
condições. Estes que mostram resultados insuficientes, que são “vendidos” de forma
sedutora, levando à adoção de terapias desnecessárias. Assim surge o overtreatment.
Recentemente, o
Jornal Nacional noticiou que os médicos agora consideram que o valor ideal de
colesterol LDL (colesterol ruim) é 70 mg/dl. Porém, a média de LDL-colesterol
na população é 120 mg/dl, sendo muito difícil que uma pessoa saudável tenha
colesterol LDL de 70 mg/dl. Desta
forma, um grande número de pessoas, antes definidas como portadores de
colesterol adequado, agora estão insatisfeitas com seu colesterol. Como dieta
reduz apenas 5-10% e exercício não tem impacto algum, restará apenas medicação
para que as pessoas tenham um ótimo colesterol. De posse dessas novas
definições, se inicia o marketing simulteamente voltado para médicos e
pacientes. Um marketing efetivo, pois quem não quer ter colesterol ótimo?
Tudo isso ocorre
em detrimento de uma escolha conscienciosa e científica, tal como proposto pela
medicina baseada em evidências. Está mais para medicina baseada em fantasia,
uma lucrativa fantasia.
Por outro lado,
precisamos lembrar que verdadeiros fatores de risco, como colesterol elevado,
diabetes e hipertensão, não devem ser negligenciados, necessitando de
tratamento na maioria das vezes com medicação. Nestes casos, existe comprovação
científica de benefício.
Diagnóstico e
tratamento são as ações primordiais da prática médica e devem ser feitos para
quem precisa, na hora que se precisa e com criterioso embasamento científico.
domingo, 22 de setembro de 2013
Less is More versus More is More: Estudo PRAMI
Nesta semana, o estudo PRAMI foi publicado no New England Journal of Medicine, simultâneo à apresentação de seus resultados no Congresso Europeu de Cardiologia. O resultado deste estudo muito me chamou atenção, pois vai de encontro a um quase onipresente princípio, o less is more.
O paradigma less is more prevalece na maioria das condutas
médicas em que se comparou tratamento intenso versus tratamento moderado. São consistentes e repetidas as
evidências de que fazer menos exames
(indicar para as pessoas certas) ou evitar tratamento exagerado (glicemia,
pressão arterial, transfusão) traz maior
probabilidade de benefício líquido aos indivíduos. Daí a surge a aplicação da expressão menos é mais em medicina.
Em postagem antiga, demos várias exemplos de comprovação deste princípio em diferentes
situações médicas.
Esta expressão foi difundida em meados no
século XX pelo alemão LudwigMies van der Rohe, um dos pais da
arquitetura moderna, que primava pelo estilo claro e simples, expressando o
espírito da era pós-guerra, em contraposição ao estilo gótico ou barroco.
Percebemos este estilo nas obras de Frank Lloyd Wright (Guggenheim) ou Oscar Niemeyer. Esta tendência surgiu na
renascença, quando Leonardo da
Vinci afirmou “simplicidade é a
sofisticação mais requintada”. Um exemplo moderno da aplicação deste
princípio estético foi o fascínio de Steve Jobs pelo less is more, criando
produtos cuja estética reside principalmente em sua linearidade e simplicidade
tecnológica. Há algo mais simples do que um telefone sem teclas?
Porém, é na medicina que este paradigma é verdadeiramente comprovado por evidências
científicas. A editora da revista JAMA Internal Medicine, Rita Redberg, criou a série de artigos Less is More, já com 83 publicações, que envolvem as mais diferentes situações clínicas em que este paradigma se faz presente.
Mas por que o estudo PRAMI contradiz o paradigma less is more?
O ensaio clínico PRAMI estudou pacientes submetidos a intervenção
coronária primária no infarto com supradesnível do ST e que tinham outras placas provocando estenose > 50%, além da lesão culpada. Estes pacientes foram
randomizados para realizar intervenção apenas da artéria culpada pelo infarto
(conduta corrente, less is more) versus
intervenção não só da lesão culpada, mas também das demais placas presentes (more
is more). Pois bem, o PRAMI demonstrou que o more is more foi superior
ao less
is more na prevenção do desfecho combinado de óbito, infarto e angina
refratária em seguimento de 2 anos.
Este é o tipo de evidência capaz de mudar nosso paradigma de
tratamento do infarto com supradesnível do ST. Em medicina baseada em evidências, devemos aceitar evidências de qualidade, independente de nossa crenças (less is more). Mas antes precisamos avaliar a qualidade das evidências.
Análise Crítica da Evidência do PRAMI
Em primeiro lugar, devemos perceber que este é um ensaio clínico
relativamente pequeno, apenas 465 pacientes randomizados, um número bem menor
do que o normalmente visto em ensaios clínicos de fase III. Por si só, isto não
invalida do trabalho, porém o deixa mais vulnerável aos efeitos de erros aleatórios
ou sistemáticos.
Seguindo o check-list de nossa última postagem, o estudo passa na maioria das checagens de erros
sistemáticos (vieses), porém um deles necessita melhor avaliação: vies de aferição do desfecho. O desfecho primário deste estudo é o combinado de morte cardiovascular, infarto e angina refratária. Este último é sozinho responsável por 57% dos desfechos do estudo e por ser mais subjetivo (soft), fica mais sujeito a enviesamento.
Em um momento pontual do texto, o trabalho é descrito como single blind, indicando que apenas uma das partes, o médico ou o paciente, está cega em relação à alocação. Embora não esteja especificado qual das partes, deduzo que seja o paciente cego, sendo que o pesquisador tem conhecimento da alocação. Cegar o paciente previne que o efeito placebo corrompa este desfecho. Por outro lado, o pesquisador pode interpretar um desfecho como angina refratária ao saber que o paciente não foi plenamente revascularizado.
O ideal em um estudo aberto seria
considerar apenas desfechos hards. Porém sendo este um estudo pequeno, desfechos hards não teriam a frequência necessária para gerar um poder estatístico satisfatório. Portanto a solução deveria ser cegar o estudo e isto não foi feito plenamente.
Nota-se que os autores tiverem o “cuidado” de considerar apenas
anginas que fossem refratárias. A primeira vista isso parece tornar o desfecho
mais duro, porém percebam a realidade: ter angina ou não ter é algo mais
objetivo do que definir se a angina é refratária ou não. Uma vez tendo angina,
isto pode gerar um ajuste de droga, porém o pesquisador que sabe que ficou com lesão não abordada tende a julgar que o ajuste farmacológico não foi
suficiente para o controle de seu sintoma. Isto mostra que no caso de um estudo
aberto, qualificar um sintoma pode ser mais subjetivo do que simplesmente
avaliar se o sintoma ocorreu ou não. Desta forma, em um estudo aberto a definição de refratária não torna o desfecho angina menos vulnerável ao viés de aferição, pode tornar até mais vulnerável.
Da mesma forma aparentemente “cuidadosa”, os autores consideraram apenas as anginas que tinham isquemia miocárdica demonstrada por exames funcionais. Este é outro detalhe que a primeira vista sugere um desfecho mais criterioso (hard), porém faz exatamente o contrario. Claro que um paciente que tem lesão residual tem maior probabilidade de ter isquemia quando comparado ao paciente que fez abordagem de todas as suas lesões. Este critério, na verdade, gera um preconceito de que os pacientes do grupo mais conservador terão mais angina refratária. Foi incorreto utilizar um critério de imagem para definir um desfecho clínico, principalmente porque, independente do desfecho, um grupo com certeza terá mais isquemia no exame de imagem. Esta foi uma forma pré-concebida de garantir que o desfecho angina fosse mais frequente no grupo que não realizou revascularização completa.
Da mesma forma aparentemente “cuidadosa”, os autores consideraram apenas as anginas que tinham isquemia miocárdica demonstrada por exames funcionais. Este é outro detalhe que a primeira vista sugere um desfecho mais criterioso (hard), porém faz exatamente o contrario. Claro que um paciente que tem lesão residual tem maior probabilidade de ter isquemia quando comparado ao paciente que fez abordagem de todas as suas lesões. Este critério, na verdade, gera um preconceito de que os pacientes do grupo mais conservador terão mais angina refratária. Foi incorreto utilizar um critério de imagem para definir um desfecho clínico, principalmente porque, independente do desfecho, um grupo com certeza terá mais isquemia no exame de imagem. Esta foi uma forma pré-concebida de garantir que o desfecho angina fosse mais frequente no grupo que não realizou revascularização completa.
Por fim, precisamos falar de morte cardiovascular. Tenho
dito que morte é o desfecho mais hard que existe, ninguém vai errar sua aferição. Por outro lado, morte de causa
específica (cardiovascular) é um desfecho sujeito a interpretações das mais diversas: imaginem um
paciente interna por infarto, realiza coronariografia, desenvolve insuficiência
renal por contraste e morre - esta morte é cardiovascular ou renal? Ou um paciente
interna por pneumonia, durante o curso da infecção apresenta um infarto e
morre - morte cardiovascular ou infecciosa? Independente das respostas
corretas, observem que há justificativa para qualquer das definições do
desfecho.
Desta forma, percebam que uma “cuidadosa” definição de
desfechos, aliada ao caráter aberto da observação, pode definir a priori o resultado do estudo de acordo
com o interesse do investigador. Este estudo é bom exemplo disso.
Passando para a segunda parte de nosso check-list, entramos na questão do erro
aleatório, proveniente do acaso. Vejam os quatro pontos a checar e adivinhem onde está a falha.
Este é um estudo truncado!! De novo? Por que isso, interromper um estudo tão
pequeno justamente no momento em que o resultado está favorável à hipótese
testada? Justamente porque ao continuar o estudo, corre-se o risco do resultado
(que pode ser por acaso) desaparecer. Já exemplificamos neste Blog inúmeros
casos de estudos truncados (Xigris é o mais famoso, inclusive com postagem específica
sobre esse tema). Como mencionamos previamente, um interessante trabalho publicado no JAMA mostrou que
quando o número de desfechos é menor que 200, o risco de um resultado superestimado fica bem mais alto. Este é o caso do PRAMI.
Observem então que o PRAMI combina algumas
características perigosas. Fazendo uma teoria
de conspiração, é como se os autores pensassem: vamos fazer um estudo bem
pequeno, ajustar os desfechos de forma a favorecer nosso interesse e quando o
estudo mostrar positividade, a gente interrompe na hora, para garantir o resultado.
Implicações Práticas
O resultado do PRAMI, caso verdadeiro, mudaria um importante paradigma no tratamento do infarto. Nesta circunstância clínica, trocaria o paradigma do less
is more para o more is more.
Pode até ser que o resultado do PRAMI seja verdadeiro, mas não é uma garantia. O princípio científico da hipótese nula afirma que na ausência de evidência forte o suficiente, devemos permanecer com a ideia da ausência do fenômeno. Nesta discussão, não estamos afirmando que o tratamento das múltiplas angioplastias não seja benéfico. Estamos apenas chamando a atenção de que não podemos afirmar que seja benéfico. Percebam o detalhe filosófico.
Esta mudança de paradigma promoveria aumento significativo da (já enorme) quantidade de intervenções coronárias, gerando um curso logístico e econômico ainda mais elevado do que o já existente.
Pode até ser que o resultado do PRAMI seja verdadeiro, mas não é uma garantia. O princípio científico da hipótese nula afirma que na ausência de evidência forte o suficiente, devemos permanecer com a ideia da ausência do fenômeno. Nesta discussão, não estamos afirmando que o tratamento das múltiplas angioplastias não seja benéfico. Estamos apenas chamando a atenção de que não podemos afirmar que seja benéfico. Percebam o detalhe filosófico.
Esta mudança de paradigma promoveria aumento significativo da (já enorme) quantidade de intervenções coronárias, gerando um curso logístico e econômico ainda mais elevado do que o já existente.
Sou totalmente a favor de mudanças de paradigma, em
postagem recente fiz uma apologia à transgressão, quando citei Nilton Bonder. No
entanto, mudanças de paradigmas devem ser mediadas por argumentos mais fortes do que aqueles que sustentam a ideia corrente. O estudo PRAMI
não tem nível suficiente para promover esta mudança.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Check-list para Análise Crítica de Artigo sobre Conduta Terapêutica
Análise
de Veracidade
I.
Erros Sistemáticos (vieses)
Quanto à Intervenção
1. Efeito
de confusão:
há diferenças entre os grupos que possam simular ou anular o benefício da
intervenção? Ensaio clínico randomizado?
2. Aplicação
da intervenção:
o tratamento foi corretamente aplicado aos indivíduos do grupo intervenção?
3. Aplicação
do controle:
o grupo controle recebeu tratamento que possa atenuar o contraste com o grupo intervenção?
4. Intenção
de tratar: os
pacientes forma analisados de acordo com sua randomização inicial?
5. Viés de desempenho: caso o estudo seja aberto, pode ter havido melhor qualidade de assistência aos pacientes do grupo intervenção que gere um falso benefício do tratamento? Ou melhor de qualidade compensatória aos pacientes do grupo controle que atenue o efeito da intervenção?
5. Viés de desempenho: caso o estudo seja aberto, pode ter havido melhor qualidade de assistência aos pacientes do grupo intervenção que gere um falso benefício do tratamento? Ou melhor de qualidade compensatória aos pacientes do grupo controle que atenue o efeito da intervenção?
Quanto ao
Desfecho (viés de aferição do desfecho)
6. Subjetividade: o desfecho é subjetivo o
suficiente para provocar erros de aferição?
7. Efeito
placebo: em
um estudo aberto, o desfecho em questão é vulnerável ao efeito placebo?
8. Desfecho criado pelo médico: em um estudo aberto, o desfecho se constitui em uma conduta médica, que possa ser influenciada pela caráter aberto do estudo (por exemplo, indicação de cirurgia por suposta falência do tratamento clínico).
8. Desfecho criado pelo médico: em um estudo aberto, o desfecho se constitui em uma conduta médica, que possa ser influenciada pela caráter aberto do estudo (por exemplo, indicação de cirurgia por suposta falência do tratamento clínico).
9. Seguimento: houve perda significativa de
seguimento dos pacientes (> 10%).
II. Erros Aleatórios (acaso)
Em estudo positivo
(P < 0.05), condições de baixa confiabilidade do valor de P:
1. Conclusão baseada em desfecho secundário? (problema das
múltiplas comparações)
2. Conclusão positiva baseada em análise de subgrupo de estudo negativo?
3. Estudo truncado?
4. Estudo com baixo poder
estatístico?
Em estudo
negativo (P > 0.05), avaliar:
5. O estudo tem poder estatístico
satisfatório para testar benefício clinicamente relevante?
Análise de Relevância
I. Análise Qualitativa
1. O desfecho é substituto ou clínico?
O primeiro apenas gera hipótese; o segundo modifica conduta.
2. Em sendo desfecho clínico,
qual a importância do desfecho na vida do indivíduos (hard vs. soft).
3. Caso o desfecho clínico seja
composto, o resultado resulta do efeito em cada componente do desfecho ou
apenas nos menos importantes?
II. Análise Quantitativa
1. Cuidado com redução relativa
de risco, pode causar ilusão de grande benefício.
2. Prefira redução absoluta do
risco (risco grupo 1 – risco grupo 2).
3. Calcule o NNT para
avaliar a magnitude do benefício
da terapia.
-
NNT
= 100/redução absoluta de risco
-
NNT
< 50 é considerado satisfatório.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Limites da Relação Médicos / Indústria Farmacêutica
Artigo escrito por Guilherme Brauner Barcelos, autor dos blogs Evidence Biased Medicine e Medicina Hospitalar.
Recentemente estive em evento onde a farmacêutica Sanofi foi patrocinadora e esteve fisicamente presente através de estande / propagandistas. Ao perceber que buscavam gestores e médicos para divulgar uma iniciativa, resolvi me aproximar e conversei com um dos promotores.
Trata-se do Programa "TEV Safety Zone", uma iniciativa global de educação continuada e outras ações para prevenir o tromboembolismo venoso no ambiente hospitalar. O objetivo é auxiliar os hospitais, por meio de palestras para profissionais da saúde, auxílio para implantação de comissões hospitalares de prevenção de TEV e protocolos, e apoio para o treinamento da enfermagem. O programa contribui também para que os hospitais que estejam em processo de acreditação recebam sua certificação, segundo fonte oficial.
Quando questionei se o projeto tinha algum site de apresentação em língua portuguesa, o funcionário da indústria orientou-me a procurar informações via portal do HC/FMUSP, valorizando ainda a existência de um banco de dados eletrônico conjunto, com informações sobre o tema envolvendo diversas instituições hospitalares. Acabei encontrando o material abaixo dentro do portal da Disciplina de Clínica Médica e Propedêutica da USP, sem nenhuma referência visual ou textual à parceria com o laboratório:
"Banco de dados desenvolvido para que hospitais e clínicas cadastrados tenham acesso a uma ferramenta para registro de profilaxia de tromboembolismo venoso (TEV) em pacientes clínicos e cirúrgicos internados. Uma senha e usuário serão criados para o diretor do hospital ou clínica e para mais duas pessoas por ele designadas – tipicamente o profissional médico envolvido no programa e o responsável por alimentar o banco de dados. Os dados são registrados de maneira padronizada e é obrigatória a obtenção de consentimento pós-informação, ou de autorização do CEP local que libere a necessidade do consentimento, para que os dados aqui compilados possam ser utilizados em publicações científicas ou apresentações em congressos" - saiba mais aqui.
Sequer tenho convicção de que bati corretamente as informações ou de que não existem outros espaços virtuais do próprio HC/FMUSP onde apresentem a parceria abertamente, mas, de qualquer forma, alguns pontos merecem ser discutidos em uma perspectiva sistêmica:
1. Devem grupos que lidam diretamente com ensino médico em graduação e estudantes de Medicina participar deste tipo de aliança?
2. É relevante alguma referência ao vínculo com indústria farmacêutica por parte de autarquias estaduais ou outras organizações tuteladas pelo Estado brasileiro em projetos desta natureza? Por quê?
3. É indiscutível a complexidade dos processos necessários para adequada e bem sucedida implantação de protocolos nas organizações de saúde. Mas realmente é preciso parceria com a indústria na elaboração de recomendações e treinamentos locais? Quais são os reais desafios para homogeneização de práticas e condutas a partir de protocolos institucionais e para a capacitação de corpo funcional dos hospitais? Se entendo mais fácil o papel da indústria no grandes congressos médicos, alguns quase espetáculos circenses, nessas situações faz a diferença? E se faz, como? Vantagens e desvantagens?
No hospital em que trabalho em Porto Alegre dispomos de inúmeras comissões ativas e produtivas no campo da qualidade e segurança, não sendo necessário em nenhuma delas este tipo de suporte. Uma parceria com a indústria para implantação de comissões hospitalares de prevenção de TEV, onde vislumbram "um grupo multidisciplinar envolvido, constituído de profissionais dos principais serviços, como clínica médica, terapia intensiva, cardiologia, pneumologia, cirurgia geral, enfermagem e farmácia", não se presta muito mais a estimular o contato de lideranças e formadores de opinião com a empresa?
Considerando que a empresa produz especificamente o CLEXANE®, o processo de decisão da instituição entre marcas e tipos de anticoagulantes semelhantes poderia ser influenciado de alguma forma?
Já o "trabalho de apoio para o treinamento da enfermagem" fez-me lembrar de iniciativa semelhante que vivenciei em instituição onde no passado trabalhei. Uma indústria de tecnologias promoveu capacitação de enfermeiros e técnicos e, amparados pela premissa [verdadeira] de que "em sepse, tempo é vida", estimulava os profissionais a trazerem dispositivos já prontos para o uso (com a embalagem aberta).
E por fim, chamo atenção de que anunciam construir todas as recomendações técnicas a partir da Diretriz Brasileira de Profilaxia de TEV em Pacientes Clínicos Internados (AMB/CFM). Neste documento, onde declaram os conflitos de interesse envolvidos, informam que o grupo elaborador contou com o apoio logístico da Sanofi-Aventis do Brasil, havendo consultores da empresa entre os autores, bem como membros do Advisory Board da Sanofi-Aventis do Brasil.
Em momento tão complicado para os médicos brasileiros, em que estamos sendo jogados contra a população pelo Governo, na tentativa de melhorar nossa imagem, não seria oportuno abandonarmos a soberba de acreditar que políticos se perdem quando envolvidos em relacionamentos complicados, mas médicos jamais? Mesmo reconhecendo que a maioria dos médicos e sociedades médicas age corretamente perante conflitos de interesse, mas na falta de barreiras efetivas e transparentes para o contrário, não seria um bom momento para mostrar que também queremos parecer publicamente que agimos bem? E então evoluir em políticas de relacionamento com elementos além da simples declarações de conflitos de interesse?
Que esta e outras questões sirvam para debate construtivo...
sábado, 24 de agosto de 2013
O Estranho Mundo do Overdiagnosis
Neste mês, o ex-presidente
americano George W. Bush fez um teste de esforço, recebeu o diagnóstico de doença
coronariana, e foi submetido a implante de stent
em uma das artérias de seu coração. Na alta hospitalar, saiu acreditando que se
beneficiou, porém mal sabe ele que sofreu do que a literatura médica
internacional denomina overdiagnosis.
Overdiagnosis é um diagnóstico verdadeiro,
porém desnecessário, com maior potencial de causar danos do que benefícios.
Este fenômeno decorre da cultura do check-up,
propagada pelo lobby em prol do
excesso de exames em pessoas saudáveis. Em contraposição, o pensamento
médico-científico propõe que a realização de exames se justifique pela
existência de um benefício clínico advindo do diagnóstico. E não pela falsa
perspectiva de proteção gerada pelo exame. Em pessoas saudáveis,
assintomáticas, há exames que devem e outros que não devem ser realizados.
O senso comum sugere que o
“desentupimento” da artéria de Bush foi benéfico. No entanto, isto vai de
encontro à totalidade das evidências científicas de qualidade (COURAGE, BARI 2D, FAME-II): no paciente estável, “desentupimentos” não
previnem morte cardiovascular, nem infarto. Isto ocorre porque a intervenção é
feita na placa de gordura que mais impressiona visualmente, sendo que o infarto
por decorrer de qualquer das inúmeras placas invisíveis que residem em todo
leito coronário. O que previne infarto é o controle dos fatores de risco.
Principalmente controle do colesterol elevado, da hipertensão arterial e
tabagismo. Este deve ser o verdadeiro enfoque preventivo.
O benefício do procedimento que Bush
recebeu é útil para controlas dos sintomas de angina. Porém Bush não pode
desfrutar deste benefício, pois não sente nada, tendo recentemente pedalado 30
milhas em um evento que homenageou veteranos da guerra do Iraque. Desfrutou,
isto sim, do estresse psicológico do internamento, do desconforto de uma
intervenção invasiva, da necessidade de uso prolongado de drogas
antiplaquetárias, além do alto custo de seu procedimento.
Outra exemplo de overdiagnosis é o rastreamento indiscriminado de alguns cânceres em
pessoas assintomáticas. Por exemplo, a realização anual do exame de PSA para
pesquisa de câncer de próstata em homens assintomáticos. Embora câncer de
próstata em alguns casos possa ser fatal, está provado cientificamente que
fazer PSA de rotina não reduz probabilidade de morte por esta doença. Isto
porque na prática, a detecção de cânceres precoces e localizados não
necessariamente previne cânceres avançados, como sugere o senso comum. Em contrapartida, a cada 1000 homens que realizam PSA, 200 sofrem biópsias
desnecessárias, 29 terminam impotentes e 18 com incontinência urinária devido a
previsíveis efeitos advindos do tratamento resultante do overdiagnosis. Por este motivo, no ano passado US Prevention Task Force (órgão americano que recomenda exames
preventivos) contraindicou o uso de PSA em homens assintomáticos.
Paradoxalmente, PSA continua sendo um dos mais populares exames em nossa
prática médica. Isto não quer dizer que a pesquisa do câncer de próstata e seu
tratamento cirúrgico não esteja indicada em certos casos, principalmente em
pacientes com sintomas. O overdiagnosis
se refere ao uso do exame em qualquer pessoa, independente de seus fatores de
risco ou quadro clínico.
Esta
discussão não propõe que passemos a negligenciar a medicina preventiva. Propõe
que os exames certos sejam realizados nas pessoas certas. Ao solicitar um
exame, tenhamos em mente que em última instância o objetivo é beneficiar o
sujeito clinicamente. Há casos em que o rastreamento para câncer e a pesquisa
da doença coronária devem ser realizados. Segundo, devemos lembrar que prevenir não é necessariamente fazer exames, há situações em que a prevenção vem de outras condutas.
Quando
presidente, George W. Bush diagnosticou que o Iraque representava uma ameaça ao
mundo ocidental e promoveu uma guerra de benefícios questionáveis e eventos
adversos evidentes. Dez anos se passaram e agora seus médicos fizeram o mesmo:
diagnóstico desnecessário e tratamento fútil. Tudo não passa do estranho mundo do overdiagnosis.
* Artigo publicado ontem no Jornal A Tarde por Luis Correia.
* Artigo publicado ontem no Jornal A Tarde por Luis Correia.
domingo, 4 de agosto de 2013
O sucesso do Bahia é estatisticamente significante?
Sou Bahia e vibro com a terceira
posição do tricolor no Brasileirão. Poderia deixar meu cérebro direito (emoção,
paixão) prevalecer, argumentar que nosso time atualmente é um dos melhores e
que corremos o risco de sermos campeões mais uma vez. Esse argumento não
estaria errado, pois futebol é paixão. Por outro lado, este Blog é
científico e serve para exercitarmos o cérebro esquerdo, racional, matemático,
realista. Portanto, farei uma abordagem de torcedor estatístico.
Neste contexto, surge a seguinte questão.
O Bahia está bem mesmo? Observem que o que temos neste momento não é o
campeonato brasileiro inteiro, é apenas uma amostra (uma parte) do campeonato,
representado pelas primeiras 10 de um total de 38 rodadas. Isso se assemelha às
evidências científicas, que em geral são observação obtidas em amostras
populacionais e depois extrapoladas para a população. Quando utilizamos amostras para obter informações a cerca da população, devemos fazer uso da estatística, que serve para quantificar a incerteza a respeito de nossas conclusões amostrais.
Formulando esse problema sob a forma
científica, precisamos testar a hipótese de que o Bahia de 2013 é
melhor do que o Bahia de 2012. Ao comparar a posição do Bahia após a décima
rodada do campeonato, percebemos que hoje estamos na 3o posição, muito
melhor do que no ano passado, que nesta altura estávamos na (pasmem) 19o
posição. Que diferença gritante!
No entanto, o que percebemos nessa amostra pode ou não ser representativa da realidade do
campeonato por inteiro. Quando estamos com uma amostra, existe a possibilidade da
diferença entre os campeonatos ter sido obra do acaso e não uma concreta melhora de qualidade do time. Foi apenas sorte do Bahia?
Teste de Hipótese
Vou aproveitar este exemplo futebolístico
para explicar como funciona teste de hipótese em estatística. Primeiro,
começamos a premissa da hipótese nula,
que prima pela inexistência do fenômeno (Bahia está melhor). Daí nos perguntamos: se a hipótese nula for verdadeira (Bahia
não está melhor), qual a probabilidade desta diferença entre os dois
campeonatos se fazer presente?
Se na presença da hipótese nula, for alta
a probabilidade da diferença observada, pode ser que tudo não passe do acaso.
Daí não vamos acreditar no fenômeno, vamos ficar com a hipótese nula.
Estatisticamente falando, não podemos rejeitar
a hipótese nula.
O que a estatística faz é calcular a probabilidade
do resultado observado aparecer na vigência da hipótese nula. Essa
probabilidade é o valor de P.
Sendo assim, calculei o valor de P da
diferença da proporção de vitórias do Bahia nas primeiras 10 rodadas de 2013 versus 2012. Sendo uma diferença de
proporção, usei o teste de Fisher, que se adéqua melhor a pequenas amostras (N
= 10 jogos). Encontramos o seguinte: o Bahia ganhou 40% dos primeiros 10 jogos
em 2013, comparado a 10% de vitórias em 2012, sendo o valor de P = 0.30. Isso
significa que há 30% de probabilidade dessa diferença aparecer, mesmo na
vigência da hipótese nula. Se o time for tão ruim quanto 2012, há ainda 30% de
probabilidade da campanha destas primeiras rodadas se fazer presente. Ou seja,
essa campanha não é suficientemente diferente de 2012 para rejeitar mos a hipótese nula.
Como todos sabem, para rejeitar a
hipótese nula, é necessário valor de P < 0.05. O que significa isso? Se
aparecer um resultado que seja muito improvável na vigência da hipótese nula,
a gente começa a duvidar da hipótese nula, que era nossa premissa inicial. Se essa
probabilidade ficar abaixo do limite de 5%, a gente para de insistir na hipótese nula, rejeita esta hipótese e fica com a hipótese alternativa de que o fenômeno é verdadeiro.
Neste caso, seria a hipótese alternativa de que o Bahia está de fato melhor.
Assim funciona teste de hipótese.
Partindo do ceticismo científico, nossa tendência é proteger a hipótese nula.
Porém só até um certo ponto. Na presença de um resultado muito improvável (uma
diferença muito grande, com P < 0.05), faz mais sentido achar que a hipótese
nula é falsa, achar que de fato o Bahia está melhor.
O porquê de 5% ser o limite para rejeição
da hipótese nula será tema de futura postagem. Mas adianto que este valor
específico é uma convenção do que se
considera matematicamente muito improvável.
Podemos também fazer uma comparação dos
pontos obtidos pelo Bahia a cada rodada. Em 2012, o Bahia obtinha uma média de
0.90 pontos por jogo, com desvio-padrão de 0.88. Em 2013, a média de pontos por
jogo subiu para 1.6, com desvio-padrão de 1.27. A diferença de 0.90 ± 0.88 versus 1.6 ± 1.27 resulta em valor de P = 0.28. Ou
seja, 28% de probabilidade dessa diferença aparecer mesmo a hipótese nula sendo
verdadeira.
O Fenômeno de Regressão à Média
Sendo assim, o que
vimos até então pode ser mera obra do acaso e não garante que o Bahia esteja
melhor. Se isso for por acaso, a tendência será o desempenho do Bahia regredir à média. Ou seja, com o passar
das rodadas o Bahia vai caindo de posição, terminando em uma posição abaixo do
que a atual. Este é o fenômeno estatístico de regressão à média, já comentado
em detalhes nesse Blog (vale a pena rever esta e esta postagens). Em resumo, este fenômeno indica que na presença de resultados extremos (Bahia muito bom
ou muito ruim), na medida em que se aumenta o tamanho amostral, a observação vai tomando uma
forma mais próxima do usual. Vai regredindo à média.
Observem o progredir do campeonato. Pode
ser um grande exemplo de regressão à média.
Poder Estatístico
Quando diante de um estudo negativo
(ausência de diferença estatística entre os grupos), devemos considerar duas possíveis
explicações: (1) de fato não há diferença ou (2) o estudo sofreu o erro tipo
II, aquele no qual uma diferença verdadeira não foi encontrada por falta de
poder estatístico (estudo pequeno).
De fato, este é um estudo pequeno e para a diferença observada no percentual de vitórias,
o poder estatístico é de apenas 15%. Como comentado na última postagem,
um estudo deve ter pelo menos 80% de poder estatístico.
Desta forma, é possível que o Bahia
esteja melhor e o estudo não foi capaz de encontrar significância pois ainda
tem muito pouco jogo. Mas percebam que
esta análise não nos permite concluir que quando aumentar os jogos, vai se
comprovar que o Bahia está melhor. O baixo poder estatístico nos permite apenas
concluir que o resultado negativo não é definitivo e que estudos maiores podem
(ou não) mostrar um resultado positivo. Mas por enquanto devemos ficar com a
hipótese nula, a qual não foi rejeitada neste estudo.
O que ocorre muitas vezes em medicina é a
utilização inadequada do argumento de que um estudo não tem poder estatístico
para rejeitar a hipótese nula. Por exemplo, alguém é a favor de um tratamento.
Este tratamento foi semelhante ao placebo em um estudo pequeno, que não tinha
poder estatístico ideal. Daí a pessoa diz que foi erro tipo II e com isso
considera que o tratamento deva ser utilizado. Isso é errado! A interpretação
certa é que este estudo não demonstrou benefício, portanto o tratamento não
deve ser utilizado. Em segundo lugar, por este estudo ser pequeno, a questão
ainda não está fechada. Estudos maiores podem (ou não) mostram resultados
favoráveis. Devemos esperar estes estudos.
Portanto, devemos analisar o progredir do campeonato para avaliar se a diferença regride à média ou se torna estatisticamente significante com o aumento do tamanho amostral.
Viés de Comparação
Falamos até então da possibilidade de que tudo seja decorrente do acaso, de erro aleatório. Porém, estudos podem também sofrer de outro tipo de erro, o sistemático, denominado vieses. Estes vieses representam erros no métodos dos trabalho. Na questão desta postagem, podemos estar sofrendo do viés do grupo de comparação. Ou seja, o melhor resultado do Bahia em 2013 pode decorrer dos times que lhe servem de comparação (adversários em campo) estarem piores do que em 2012, e não do Bahia estar melhor. Que diga o Fluminense, campeão no ano passado que acaba de demitir o técnico devido a 5 derrotas consecutivas; ou o São Paulo, atualmente na zona de rebaixamento.
Plausibilidade versus Realidade
Viés de Comparação
Falamos até então da possibilidade de que tudo seja decorrente do acaso, de erro aleatório. Porém, estudos podem também sofrer de outro tipo de erro, o sistemático, denominado vieses. Estes vieses representam erros no métodos dos trabalho. Na questão desta postagem, podemos estar sofrendo do viés do grupo de comparação. Ou seja, o melhor resultado do Bahia em 2013 pode decorrer dos times que lhe servem de comparação (adversários em campo) estarem piores do que em 2012, e não do Bahia estar melhor. Que diga o Fluminense, campeão no ano passado que acaba de demitir o técnico devido a 5 derrotas consecutivas; ou o São Paulo, atualmente na zona de rebaixamento.
Plausibilidade versus Realidade
Como já vimos, plausibilidade é um dos critérios de causalidade propostos por Bradford Hill. Devo reconhecer que existe certa
plausibilidade do Bahia estar melhor. Uma delas é o aspecto motivacional.
Observem que esta melhora coincide com o afastamento de um presidente
acusado de "irregularidades". Imagine a situação (hipotética) de uma
empresa cujo suposto líder é corrupto. Isso torna o grupo de trabalho
desmotivado, sendo motivação algo essencial para
ganhar competições. Agora imaginem que esse líder é afastado. Isso pode ter um
impacto enorme sobre a motivação dos funcionários. Uma esperança de melhora no
ambiente de trabalho.
Sendo assim, me parece plausível que o
Bahia esteja de fato melhor. Porém devemos lembrar que, cientificamente, plausibilidade não garante realidade. Não basta
que um tratamento tenha plausibilidade de benefício, para que seja adotado. Sua
eficácia deve ser demonstrada. Portanto, não é porque faz sentido que já
podemos ir achando que o Bahia está ótimo. Vamos esperar...
Ainda dentro da plausibilidade, podemos
ouvir muitos comentários de especialistas em futebol (os comentaristas),
mostrando os porquês do Bahia estar tão bom. Caímos na mesma situação, onde plausibilidade não representa realidade.
Até porque estas explicações vem depois dos resultados. Observem (que diga
Milton Neves) como os comentaristas erram as previsões dos resultados dos
jogos. Aliás se fossem bons preditores, estariam todos ricos com a loteria
esportiva. Isso é muito bem retratado no filme Moneyball, em que o personagem
de Brad Pitt, manager de um time de baseball, dispensa os velhos especialistas
na contratação de jogadores e traz um jovem estatístico, capaz de indicar
contratações muito mais efetivas do que as escolhidas pelos entendidos no
assunto. A mente do especialista não funciona estatisticamente, funciona de
acordo com suas crenças e emoções, ficando sujeitas a vieses de pensamento e
fatores de confusão. Isso ocorre muito com especialistas médicos, tema de
postagem futura.
Considerações Finais
A vida baseada em evidências (assim como
a medicina baseada em evidências)
evita de toda forma o dogmatismo. Dogma é quando a gente acredita em uma coisa porque
quer acreditar e pronto. Se embasar em evidência é estar de mente aberta e olhar
para os dados de maneira fria, estatística, a procura da melhor conclusão.
Dizer que o Bahia tem chance de ser campeão é algo que se aproxima mais de fé
ou fantasia. É o cérebro direito funcionando
mais do que o esquerdo. No esporte, não tem nada de errado nisso, pois esporte
é paixão, emoção, sangue, suor e lágrimas. Mas em medicina, tem que ser
diferente. Não podemos ser dogmáticos e (por exemplo) propor congelar cérebros
de pacientes pós-parada (hipotermia) antes de que
surjam evidências melhores do que as primeiras 10 rodadas do brasileirão.
A foto abaixo retrata a última vez que
meu cérebro direito me guiou no caso do Bahia. Estava eu ali, entusiasmado com meus sobrinhos, entrando na nova Arena. Para que? Para ver o Bahia perder de 7 x 3
do Vitória. Depois dessa, ficarei com a hipótese nula, até que se prove o
contrário (P < 0.05).
Agora, fazendo uma previsão realista. Vai
haver uma regressão à média, o Bahia vai cair da 3o posição. Talvez
não termine na 15o como no ano passado, terminará algo como na 10o posição. Veremos ...
OBS: Percebam
que não sou do tipo de torcedor do Bahia que fico pensando no Vitória. Desta
forma, nem mencionei este time em minha postagem. Prefiro convidar o professor
de estatística da pós-graduação de medicina da UFBA, meu amigo Paulo Rocha, a
escrever sobre seu Vitória. Espero que ele utilize o cérebro esquerdo em sua
análise.
domingo, 21 de julho de 2013
LOOK AHEAD
Recentemente, foi publicado no New England Journal of Medicine o estudo
LOOK-AHEAD, o qual demonstrou
ausência de benefício clínico de intervenção intensa com exercício físico e dieta para perda de peso em
pacientes diabéticos. Será que é verdade?
Citamos este estudo na polêmica postagem O Politicamente Correto e as Recomendações de Hábitos de Vida. Naquele momento, o resultado do LOOK-AHEAD estava
anunciado, porém o artigo não havia sido publicado na íntegra. Agora podemos
fazer a avaliação deste trabalho, sendo uma boa oportunidade para discutir como
analisar veracidade de estudos negativos.
O resultado do LOOK-AHEAD vai de encontro a uma forte crença: intervenção com exercício e dieta para perda de peso trazem
benefício clínico. Esta crença é tão forte que a comunidade médica nem
mesmo achava que este trabalho seria necessário, tal a “certeza” do benefício
destas intervenções. Agora com o artigo publicado, devemos dissecar a evidência.
Neste caso, faremos uma análise ainda mais detalhada do que o habitual, devido
à surpresa do resultado negativo. Quem achar cansativo, simplesmente acredite
na veracidade do trabalho, pule as próximas três partes e leia a parte final,
que fala do conforto cognitivo. Mas
quem quiser aproveitar para revisar como se avalia um estudo negativo, leia
tudo.
Um estudo pode ser negativo por dois
motivos: de fato pode não haver benefício da conduta testada; ou pode ser
negativo devido a erros: sistemáticos (vieses) ou aleatórios (acaso). Temos que
diferenciar as duas circunstâncias. O resultado de qualquer estudo deve ser
visto com ceticismo até que se aplique a análise sistemática da veracidade da
evidência. Ceticismo é bom, pois nos deixa mais atentos.
Erros
Sistemáticos (vieses)
Que falhas metodológicas poderiam fazer
deste um estudo falso negativo? Observem na equação de um ensaio clínico que de
um lado há a intervenção, do outro lado há o desfecho.
INTERVENÇÃO => DESFECHO
Erros podem
acontecer na aplicação da intervenção ou aferição do desfecho.
A intervenção foi descrita pelo protocolo
do estudo como “intensa”, caracterizada por reuniões de aconselhamento toda
semana, durante os 6 primeiros meses. A dieta recomendada tinha 1.200 a 1.800
calorias/dia e o exercício 175 minutos de atividade moderada-intensa por
semana. Parece um bom planejamento, mas o que temos que questionar é se a
intervenção promoveu as alterações antropométricas e fisiológicas que
teoricamente resultariam em benefício clínico. Esta análise mostra que de fato
os pacientes perderam 8.6% de peso no primeiro ano, tal como havia sido planejado
pelo estudo. Mais do que isso, sustentaram boa parte dessa perda de peso aos
longos dos 13 anos de estudo, terminando com 6% de peso a menos do que no
início do estudo. Isso parece pouco, 6-8% de redução em população de 100 Kg em
média. De fato, não é uma perda de peso
que deixa ninguém esbelto, mas é o que se consegue com dieta; e é dieta que
está sendo aqui testada. Inclusive, essa perda de peso supera o que se
verifica em estudos de droga para obesidade. Por exemplo, a “aclamada”
Sibutramina reduziu 4.5% do peso no estudo SCOUT. Desta forma, o estudo
conseguiu testar uma intervenção que de fato reduziu peso; ou melhor reduziu o peso que dieta consegue reduzir. Portanto, não houve viés de aplicação da intervenção.
E quanto ao exercício? Este também foi
eficaz em promover mudanças fisiológicas, tendo gerado ganho de capacidade
funcional, medido em METS.
Ainda dentro da análise da intervenção, é
importante verificar se o grupo controle de fato fez o papel de controle. Um bom controle tem que ser diferente da
intervenção, gerando um contraste que provoque diferença de desfecho entre os
grupos. Por questões éticas, o grupo controle também recebeu
aconselhamento, em menor intensidade. Isso promoveu perda de peso progressiva
ao longo dos anos, reduzindo um pouco o contraste entre os grupos. Mas isso não
foi suficiente para fazer o contraste desaparecer: em média, ao longo dos anos
de estudo, a diferença de peso entre os grupos foi 4 Kg, o que se considera
significativo em estudos que avaliam perda de peso com dieta. Na verdade, em estudos de hábitos de vida,
é esperado que o grupo controle tenha algum tipo de melhora simplesmente pela
motivação de estarem no estudo. O que temos que avaliar é se essa melhora foi
grande o suficiente para invalidar o estudo. Aqui não parece ter sido o
caso.
Desta forma, quando à intervenção não
identificamos vieses preocupantes.
E quanto ao desfecho? Este foi um
desfecho composto apenas de eventos duros, objetivos e de importância clínica:
morte, infarto e AVC. Isto torna improvável a possibilidade de viés de aferição
dos desfechos. Mesmo em estudos abertos como o LOOK-AHEAD (não poderia deixar
de ser, por questões óbvias), estes tipos de desfechos raramente sofrem erros
de aferição, pois são muito objetivos. Além disso, os autores tiveram o
cuidado de tornar cega a adjudicação (auditoria) destes desfechos, evitando que
estes pesquisadores soubessem da alocação dos pacientes. Mesmo assim, um eventual viés de aferição, se ocorresse, possivelmente
seria a favor do grupo intervenção, visto que a noção de que um paciente
experimentou perda de peso e praticou atividade física nos deixa mais propícios
a acreditar em melhora prognóstica para estes indivíduos.
Uma virtude deste estudo é o tempo de
follow-up, cuja mediana foi de 10 anos.
Usualmente os estudos de prevenção primária têm em torno de 5 anos de segmento
(vide estatinas, anti-hipertensivos). Por se tratar de intervenções
relacionadas a hábitos de vida, poderia ser que os resultados demorassem mais a
aparecer. Portanto, os autores tiveram o
cuidado de realizar um longo follow-up, quase sem precedentes em estudos de
intervenção. Isso dá mais consistência ao resultado negativo, que não pode
ser atribuído a tempo insuficiente para se detectar benefício clínico.
Portanto, aqui temos um estudo confiável
quanto à intervenção e quanto à aferição dos desfechos.
Mas ainda analisando erros sistemáticos,
resta outra possibilidade: o viés de confusão, que ocorre quando os dois grupos
são diferentes e essas diferenças podem provocar heterogeneidade de desfechos.
Isso pode explicar o resultado consistente dos estudos observacionais, que
demonstram associação entre exercício físico e menor risco cardiovascular. Quem
faz exercício é diferente de quem não faz (menos doentes, mais cuidadosos com a
saúde) e essas diferenças podem ser as verdadeiras causas do melhor prognóstico
destes pacientes. Como solucionar? Fazendo ensaios clínicos randomizados, pois
a “mágica da randomização” garante que os grupos sejam semelhantes.
Paradoxalmente, as pessoas
não atentam muito para a grande necessidade de ensaios clínicos randomizados e insistem em citar estudos observacionais
como evidências definitivas do benefício de hábitos de vida, como é o caso do
exercício. São exatamente os hábitos de vida que mais precisam de estudos
randomizados, pois estes hábitos trazem consigo várias características
demográficas, clínicas, antropométricas, sociais, econômicas de seus
praticantes. Portanto, às viúvas do exercício ou perda de peso, por favor, não
critiquem o LOOK-AHEAD citando estudos observacionais
positivos. O potencial viés do desenho observacional é maior do que qualquer
outro.
O LOOK-AHEAD é um
estudo randomizado e como podemos perceber na tabela de características
clínicas, as duas amostras (intervenção e controle) são idênticas.
Porém ainda há um
detalhe que normalmente não se percebe e não é considerado na análise de
fatores de confusão. Às vezes, os
pacientes são semelhantes no momento basal, mas ao longo do estudo se tornam
diferentes. É o que resolvi denominar de fator de
confusão prospectivo. Será que o grupo controle foi melhor tratado com
drogas por uma reação compensatória dos médicos para com os pacientes que não
foram randomizados para a intervenção? Seria um viés de desempenho, típico de um estudo aberto. De fato, houve
maior freqüência do uso de estatinas e anti-hipertensivos. Isso foi o que mais me preocupou como potencial viés. Isto poderia
ter feito o grupo controle menos predisposto a desfechos, anulando uma eventual
superioridade do grupo intervenção. Fui atrás dos detalhes e o material
suplementar do artigo traz as informações. Na verdade, a diferença de uso de
estatina foi mínina (74% versus 71%),
o mesmo com anti-hipertensivos (88% versus 87%).
Erros Aleatórios
Quando um estudo é
negativo (não encontra associação), devemos nos questionar se isto ocorreu devido
ao que se chama de erro tipo II: não
encontrar uma associação que na verdade existe, devido a falta de poder
estatístico. Assim, devemos começar por ler o cálculo do tamanho amostral
(usualmente no final dos métodos, no item de análise estatística), observando quatro questões:
Primeiro: qual poder estatístico o autor propõe para seu estudo? Este poder
deve ser de pelo menos 80%, pois a maior probabilidade de erro tipo II
aceitável é 20%. Observem que a probabilidade do erro tipo II é o complemento
do poder estatístico (100% - 80% = 20%). Neste quesito, nunca um autor vai propor ter um poder estatístico menor que 80% (seria um tiro no pé). Assim,
geralmente o planejado é um poder de 80%, 85% ou 90%. O que pode acontecer é o autor
omitir o cálculo do tamanho amostral, justamente por não ter um poder de pelo
menos 80%. Isso levantaria suspeita, mas não foi o caso aqui. No LOOK-AHEAD, o poder proposto foi 80%.
Segundo: qual a diferença de desfecho entre os grupos que o autor se propõe
detectar? Esse item é muito importante. Na verdade, não existe um único tamanho
amostral necessário para cada estudo, pois este depende da diferença que o autor faz questão de encontrar. Quanto menor
essa diferença, maior o tamanho amostral necessário, pois para detectar coisas
pequenas, precisamos de uma lente grande. Aqui a lente do estudo é seu
tamanho amostral. Se o autor faz questão de encontrar uma diferença pequena,
seu tamanho amostral necessário grande. Se a diferença que ele faz questão de
encontrar é grande, seu tamanho amostral pode ser menor. Quando digo “encontrar
diferença” significo obter um valor de P < 0.05.
O que devemos
analisar é se faz sentido o grau de diferença que o autor faz questão de
encontrar. Ou colocado de outra forma, qual a diferença que ele tolera não
encontrar. Devemos avaliar se nesta proposta o autor está aceitando não
encontrar algo que seja clinicamente relevante. Idealmente, o estudo deve ter tamanho amostral para detectar as
diferenças que sejam relevantes em magnitude, não necessitando demonstrar
diferenças sem importância.
Neste estudo, o
autor parte das premissas de que a incidência do desfecho no grupo controle
seria de 2% ao ano e de que o tratamento traria um redução relativa de 18% no
desfecho. Uma redução relativa de 18% em cima de uma incidência de 2% resulta
em 0.4% de redução absoluta ao ano. Parece algo razoável, ou seja, ele não está
tolerando que grandes reduções não sejam detectadas, pois tem capacidade de
detectar 0.4% de redução absoluta.
Terceiro: devemos agora olhar nos resultados se realmente a incidência de 2%
ao ano ocorreu no estudo, do contrário o estudo não teria um numero de
desfechos necessários para oferecer tal poder estatístico. Vejam nos resultados
que a incidência do desfecho foi 1.9% ao ano, ficando bem próximo ao que o
autor se propôs.
Observem então que a
análise do poder não se resume à leitura do planejamento do estudo, mas também
à leitura de se o resultado do estudo correspondeu à premissa de incidência do
desfecho. Se o autor imaginou que a incidência do desfecho seria X e sua
incidência foi menor, o estudo terá um poder menor do que ele planejou.
No LOOK-AHEAD a
incidência ficou bem próximo no planejado. Sendo assim, podemos afirmar que o
autor tinha um poder de 80% para detectar uma redução relativa de 18%, o que
julgamos ser adequado. Ou seja, o
erro tipo II deixa de ser uma preocupação maior.
Quarto: por fim, devemos
olhar as diferença de desfecho entre os dois grupos. Observem abaixo a curva de
incidência cumulativa. É muito próxima, não há diferença alguma. A suspeita de erro
tipo II faz mais sentido quando há alguma diferença que não alcançou
significância estatística, o que não é o caso aqui.
Aplicabilidade e Diabetes
O resultado deste
trabalho se aplica apenas a diabéticos? Já comentamos várias vezes neste Blog
sobre o Princípio da Complacência.
Ensaios clínicos são experimentos intensamente controlados, que utilizam de uma
população-alvo restrita para prova de conceito. Uma vez este conceito
demonstrado, devemos (até certo limite) permitir sua extrapolação para que uma
população abrangente se beneficie. Esta conduta é respaldada, pois uma vez
demonstrado um conceito, é raro que o conceito mude com a mudança do tipo de
paciente. Isto porque interação é um
fenômeno raro, é só verificar na análise de subgrupo dos ensaios clínicos
em geral. A definição de diabetes como critério de inclusão tem sido usada em
ensaios clínicos para identificar uma amostra de risco elevado, o que favorece
o poder estatístico do estudo. E não porque o interesse da pergunta diz respeito apenas em
diabéticos. Isso tem sido um engano, assim como o não entendimento do Princípio da Complacência tem sido talvez o mais importante equívoco de raciocínio em medicina baseada em evidências.
Desta forma, o
presente estudo mostra que a intervenção não é benéfica em diabético. Quanto ao não diabético, o estudo pelo
menos reduz a probabilidade de que a intervenção seja benéfica. Há alguma
aplicabilidade. Pode não fechar a questão em não diabéticos, mas coloca um
forte ponto de interrogação, reforçando a necessidade de que isso seja testado,
antes de ficarmos afirmando benéficos não demonstrados.
Conforto
Cognitivo
Embora bem desenhado e a
despeito de nossa criteriosa análise, não faltarão críticas ao LOOK-AHEAD. Estas
críticas serão de múltiplas ordens, e ocorrerão devido ao fenômeno de leitura seletiva, quando rejeitarmos
evidências que vão de encontro às
nossas crenças e abraçamos as evidências que vão ao encontro de nossas crenças.
Os psicólogos dão algumas
explicações para isto e uma delas é o interessante fenômeno de conforto cognitivo. Acreditamos no que
é mais confortável, pois é desconfortável ter seus valores questionados, dá
trabalho de pensamento. Mudança de paradigma é sempre uma ruptura com a
tradição. É mais confortável ouvir alguém falar o que já pensamos, dá menos
trabalho mental, por mais monótono que isso possa ser. É interessante perceber
a feição das pessoas quando falamos em público. Dá para perceber nitidamente o
sorriso, a satisfação de alguém quando estamos falando algo com que a pessoa
concorda, enquanto percebemos nítida mudança de expressão quando algo
controverso entre em conflito com o pensamento vigente. Uma mentira repetida
várias vezes vira verdade, pois se torna confortável ouvir uma idéia comum. Conforto
cognitivo é um fenômeno psicológico demonstrado cientificamente. É confortável ouvir falar que intervenção intensa com exercício e dieta são condutas benéficas, é desconfortável ouvir falar o contrário.
Pode ser que uma intervenção que promova perda mais substancial de peso (dieta não consegue de forma sustentada, isso é um fato) ofereça benefícios clínicos. Nesta questão, necessitamos de ensaios clínicos randomizados a respeito do impacto de longo prazo da cirurgia bariátrica em desfechos duros, tais como os avaliados no LOOH-AHEAD.
Na construção do
conhecimento científico, devemos fazer um esforço para nos livrar do conforto cognitivo, estando abertos a novos paradigmas,
mesmo que estes sejam transgressores da tradição. O rabino Nilson Bonder nos
traz em seu livro “A Alma Imoral” a idéia de que transgressão promove evolução, tradição promove estagnação. E
quando a transgressão é baseada em evidências (como é o caso da conclusão do
estudo em questão), melhor ainda.
Neste aspecto, este trabalho
tem um nome perfeito, até visionário em relação ao resultado aqui apresentado:
LOOK-AHEAD. Precisamos olhar para frente, sair na zona de conforto cognitivo e nos permitir transgressões de velhos
paradigmas, desde que estas sejam baseadas em evidências científicas. Assim,
evoluiremos científica, filosófica e clinicamente.
OBS: Este texto é um complemento da antiga postagem O Politicamente Correto e as Recomendações de Hábitos de Vida, onde o estudo LOOK-AHEAD foi pela primeira vez mencionado. Naquela postagem se encontra nossa opinião em relação ao papel do exercício e perda de peso na recomendação médica.
OBS: Este texto é um complemento da antiga postagem O Politicamente Correto e as Recomendações de Hábitos de Vida, onde o estudo LOOK-AHEAD foi pela primeira vez mencionado. Naquela postagem se encontra nossa opinião em relação ao papel do exercício e perda de peso na recomendação médica.
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