domingo, 22 de novembro de 2015

O Platonismo dos Conselhos



Nesta semana, um de meus sobrinhos se forma em medicina. Na mesma semana, um de meus alunos se forma em medicina. 

Pergunto-me que conselhos os mais “experientes” devem dar aos jovens que ingressam nessa “nobre profissão”. Pois, já tendo passado pelo futuro dos mais jovens, temos a tendência de dar conselhos em momentos como este.

Mas conselhos nada mais são do que uma forma de reciclar nossas experiências prévias, empacotando-as em regras platônicas. Na verdade, a prática de aconselhar é anti-científica, pois se presta a predizer desfechos com base em experiências e dados limitados. Conselhos não percebem as evidências silenciosas, aquelas esquecidas pelos nossos vieses de confirmação.

Na verdade, o único conselho certo é “duvide de conselhos”, pois estes contém a presunção de um conhecimento irreal. 

Conselhos desvalorizam a incerteza, fator mais excitante na vida de um jovem. Saber valorizar as incertezas é o maior dom do “jovem de futuro”. Verdadeiros descobridores e empreendedores contam menos com um planejamento estruturado, focam no máximo de experimentação e reconhecem oportunidades quando o acaso lhes apresenta.Tudo isso com uma forte visão de futuro.

Devemos valorizar as incertezas, perceber a poesia do imprevisível, pois são os fatos não previstos que modificam o mundo e constroem a história. 

Há 7 anos, usei um raciocínio pragmático em forma de conselho, questionando o sonho de meu sobrinho em fazer medicina. Ele deveria “concluir o curso de engenharia”. Foi um conselho que deve ter provocado uma reação contrária muito positiva da parte dele. Ele deve ter se motivado a provar que eu estava errado. Ainda bem … provou …

Ao invés de aceitar conselhos, vocês devem refletir a respeito de suas incertezas. E que estas reflexões venham em forma de incentivo à prática de olhar para dentro de si, identificando seus verdadeiros valores, adaptando sua visão a estes valores. 

Nestes momentos de formatura de medicina, costumamos ouvir que "medicina é uma nobre profissão.” Confesso que não vejo muito sentido nisso. Toda profissão é nobre e não há uma mais nobre do que outra. 

Na verdade, nobre é a pessoa e não a profissão.

Ser nobre é ser autêntico. Assumir seus valores e utilizá-los da forma mais adequada. 

Dizem que o médico deve ser humano. Também não consigo entender isso, somos todos humanos.

Se seu perfil não for aquele acolhedor, sem problema: escolha uma área na medicina que não necessite desta característica pessoal. Valorize seu perfil. Se por outro lado, tiver um perfil acolhedor, não se deixe corromper, seja sempre um médico de almas. 

Assim, não ouça o conselho de ser “humanizado"; seja apenas como você é, assuma seu perfil, identifique a função de acordo com sua "anatomia". Anatomia e função devem estar coerentes. 

Não se sintam nobres simplesmente por serem médicos. Construam sua nobreza pela sua coerência entre seus valores e a missão escolhida. 

E lá vou eu caindo no platonismo de aconselhar. Mas já que comecei, vou em frente. 

Sejam científicos. Que conselho óbvio, quanto mais vindo de um professor de medicina baseada em evidências. Só que aqui não me refiro ao óbvio, me refiro à verdadeira essência da ciência.

Ser científico é ser humilde. É evitar o dogmatismo.

Equivocadamente, o pensamento médico tradicional é baseado na procura da certeza. Os processos de decisão se sustentam na tentativa de controle dos desfechos. Ao contrário, o processo de decisão deveria ser focado na valorização das incertezas, no reconhecimento do imponderável, no uso de probabilidade. 

Em uma palestra recente, Leo Clement (também ex-aluno) descreveu uma ideia que, segundo ele, eu o teria ensinado. Na verdade, eu que aprendi com a clareza do pensamento de Leo: "ter razão não é o mesmo que estar correto.” 

Procuramos a decisão médica correta, porém esta não existe no paciente individual. Podemos indicar uma tratamento adequado, porém o desfecho promovido pela nossa conduta pode vir a ser indesejado. O mundo é muito mais aleatório do que nossas explicações de causa-efeito. Então, devemos procurar "ter razão" em nossas condutas, porém não cair na ilusão de que uma conduta racional será sempre a que promoverá o melhor desfecho. Não temos controle sobre o "estar correto". Devemos focar na razão (científica).

Marcos Cunha e Felipe Ferreira, meu sobrinho e meu aluno, me inspiraram a escrever este texto que ofereço a todos os outros alunos que se formaram nos anos anteriores e que faltei em dar-lhes o melhor conselho: não ouça conselhos, ouça seu coração. 

Boa sorte (acaso). 


Continuem me inspirando.

8 comentários:

  1. O acaso nos colocou num caminho semelhante, e a partir daí, nos corresponsabilizou no proposito de raciocinar e desafiar o modelo academico atual.
    E foi ao longo dessa trajetoria que reconheci os atributos que iriam compor o sustento da minha pratica profissional.
    Pode soar estranho, afinal esse atributo não pode ser reconhecido em si mesmo, mas o valor que mais aprimorei nestes anos de convivencia no grupo (e com alguns mestres brilhantes, dentre eles você em destaque) foi a Humildade. Valorizo esse Pilar que edifica minha linha de cuidado e me permite desbravar o desconhecido com confiança, como foi dito, reconhecendo a existencia/importancia da incerteza.
    Sou muito grato pelo exemplo neste quesito. Realmente, conselhos são frageis e insustentaveis, mas exemplos (um produto de interações multivariadas) são de valores incomensuraveis e duradouros. E foi através deste modelo que venho absorvendo valores incríveis contigo.

    Um agradecimento ao acaso e a você meu mestre amigo, por me emocionar com palavras sinceras e bem calculadas, mesmo que intuitivamente. Afinal num universo de imperfeições, devemos usar o raciocinio probabilistico sempre, aliando aos insights imponderaveis que criam oportunidades e momentos incríveis, como esse presente.

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  2. Luis,
    Na verdade precisamos como alunos seus, sempre de suas inspirações, afim de que estando mais perto da ciência, possamos estar mais perto de nós mesmos como seres humanos pensantes em busca da razão de nossa existência,afinal como vc mesmo já disse a prática da Medicina Baseada em Evidência nos aproxima da espiritualidade, pela incerteza da primeira em tentar provar que nossas ações estão 100% certas.
    Um grande abraço!

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  3. "Duvido, logo sou''. Descartes R.

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  4. Texto fantástico pra começar a semana !

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  5. Parabéns Luis pela bela reflexão!
    Segundo o Professor e Filósofo Leandro Karnal, pela primeira vez em nossa história evolutiva, a "primazia" tecnológica colocou este domínio, pelos jovens, a frente dos mais velhos, ou melhor. dois mais experientes. Portanto, nossos conselhos estejam menos valorizados... Todavia , ainda acredito neste viés que, associado à incerteza, pode levá-los a um futuro melhor.
    Abraços,
    Walter Homena
    (H. Barra D´Or / INC)

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  6. Dr. Luís.
    Dizem que toda regra apresenta exceções. É bom lembrar que existem situações que os bons conselhos são bem vindos. Generalizar e dizer ao jovem para não ouvir conselhos, vejo como temerário, pois quem já vivenciou determinada experiência pode pelo menos alertar aos mais novos sobre o que poderá acontecer, através dos conselhos. Talvez no seu caso, você tenha emitido um "palpite" ao seu sobrinho, o que pelo visto não foi aceito por ele. Entregar ao coração toda a responsabilidade de uma ação, por outro lado, pode ser temerário também, se não houver um equilíbrio com a razão. Água e conselho só se dá a quem pede. Ficar oferecendo conselho por aí, também não parece muito sensato. Na realidade o difícil é o equilíbrio. É a angústia do saber que move o homem. Ainda penso que um bom conselho tenha o seu valor, e o discernimento em aceitar ou não caberá a quem for receber.

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  7. Luís Claudio! Os conselhos, são expressões de amor ao próximo. quer seja na sala de aula , quer seja na "vida real",quer seja na beira do leito do paciente, eles são importantes . Na verdade, as aulas na faculdade , também são "conselhos".Os conselhos são compostos de 30% de obviedades ,30% de experiências pessoais do "especialistas" 30%de informações [estudos e referências ] , 10% de achismos ..Sempre vale as boas intenções do conselheiro . Cordialmente Lauro Wanderley[João Pessoa] é o conselho "baseado em ""algumas evidências""

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