quarta-feira, 4 de julho de 2018

Copa do mundo baseada em evidências: Brasil será campeão?



Aviso aos comentaristas esportivos que não precisamos de explicação se o Brasil perder da Bélgica. E se o Brasil ganhar, não precisam explicar que Neymar está evoluindo a cada jogo (variabilidade) ou Coutinho recebeu melhores instruções de Tite e voltou ao seu jogo inicial (regressão à média). 

Tudo falácia narrativa. 

Convenhamos que a evolução da qualidade de Neymar entre os jogos está mais para uma pequena variabilidade do que para uma nítida mudança. O jogador apresenta mais ou menos o mesmo padrão ao longo dos jogos. A diferença é que o Brasil empatou no primeiro jogo e ganhou nos demais. As vitórias progressivas geram interpretações superestimadas de melhora progressiva do time. 

Mas se quisermos acreditar em uma clara evolução, não é difícil encontrar comparações e estatísticas que apontem para isso, deletando observação contraditórias (viés de confirmação). Até que um dia o Brasil perca e Neymar faça um jogo medíocre. Vamos ter que inventar alguma convulsão no quarto do hotel para justificar uma variabilidade que poderia ser vista como parte da natureza das coisas? Lembrem de 98, não precisávamos inventar uma justificativa para o óbvio de que o time de Zidane seria o favorito naquela final dentro da França. 

Mas porque um Blog médico ousa fazer um postagem sobre futebol? Fuga do tema? Nada disso, estamos falando da mesma coisa. 

Palavras originalmente médicas como “diagnóstico” e “prognóstico” são muito usadas no meio futebolístico e “tática de jogo” poderia ser traduzido como “tomada de decisão”. A verdade é que nos comportamos parecidos no futebol e na medicina, e o entrelace desses dois ambientes pode ser instrutivo. 

Falácias narrativas acima descritas são se restringem ao futebol. 

Passamos a vida criando falácias narrativas ("meu paciente infartado com choque cardiogênico sobreviveu porque implantei um balão intra-aórtico") que sustentam condutas sem base em evidências. É uma pena, pois perdemos a oportunidade de aprender com nossa experiência, pois falácia narrativa é a melhor forma de desaprender com a experiência prática. 

Mas vamos voltar ao futebol, o que importa nesses tempo de Copa.

Se o Brasil tivesse perdido para o México pelo acaso da entrada no gol de algumas daquelas bolas perigosas, muito provavelmente os comentários sobre a qualidade do jogo de Neymar não seriam os mesmos. Imagino que estariam dizendo que Neymar não teria evoluído como se esperava ao longo dos jogos. 

Já Neymar, quando faz o gol, comemora fazendo sinal de "cala a boca", sem perceber que foi uma sorte Gabriel Jesus não tem conseguido tocar na bola e ter sido ele o detentor do gol. 

Neymar, seu gol não tem o nível de evidência para mandar ninguém calar a boca. Mas concordo que esses especialistas não têm o nível de evidências para transformar sua variabilidade de qualidade de jogo (típica da natureza) em uma deficiência que precisa evoluir. Até porque você não varia tanto, fica entre um percentil 70 e 80 de qualidade quase o tempo todo. 

Tite, vamos parar de dizer que Neymar está evoluindo para voltar ao seu status normal,  pois esse mesmo jogador foi melhor contra a Áustria (amistoso pré-copa) do que contra a Suíça. Não é evolução! É variabilidade, Tite!

Comentaristas esportivos e técnicos de futebol vivem de falácias narrativas (exceto Tostão, que tem a humildade de dizer que não acreditemos em suas previsões), procuram explicações causais retrospectivas. 

Depois do primeiro jogo cheguei a ouvir em uma mesa redonda da Sport TV: “Tite não é um técnico tão bom quanto se diz”. Independentemente da qualidade de Tite (eu acho que é o melhor técnico do Brasil depois de Telê), é caricatural elogiar Tite ao longo de 2 anos e no primeiro empate na Copa criticar sua qualidade.

Tudo isso, seja no pensamento futebolístico ou médico, decorre da desvalorização do acaso.

O futebol é um esporte dos mais imprecisos. 
Medicina é uma profissão das mais imprecisas.

A magia do futebol está em sua capacidade de dar espaço ao acaso. Vide a eliminação da Espanha pela Rússia, nos pênaltis. Coisa que nunca aconteceria no Basquete, onde a incidência de cestas é muito maior do que o número de gols em um jogo de futebol. Assim, um jogo de futebol não consegue ser uma amostra representativa da realidade. Diferentemente do futebol, o número de desfechos no basquete varia de 150 a 200 cestas. Portanto, se um time pior começar ganhando, na medida em que os desfechos aumentam com o progredir do jogo, o acaso vai se desfazendo e a causa (melhor time) vai tomando forma. Basquete é um esporte anti-acaso, feito para que ganhe o melhor. 

Futebol é um esporte pró-acaso, por isso esses resultados inusitados não são em nada surpreendentes.  Se medicina é a ciência da incerteza, o futebol é o esporte da incerteza. 

Uma copa do mundo é totalmente o contrário do Basquete! Portanto, seria o ambiente onde deveríamos aproveitar para discutir a magia do acaso, ao invés de causalidades construídas sob falsas premissas. 

A copa do mundo não foi feita para diagnosticar a melhor seleção do mundo.
Assim como a prática clínica, repleta de acaso e vieses, não serve para criar conceitos científicos. 

Uma caso bem sucedido não valida o tratamento aplicado. Uma vitória da Rússia não a valida como melhor do que a Espanha.

E não precisam dizer que a era do estilo de jogo espanhol está superada ...

E quase a Argentina ganha da excelente seleção da França ...

Vendo a França jogar, julgo que o time é melhor que o Brasil. Mas a gente deve manter as esperanças se formos para as semi-finais, pois em um imprevisível jogo de futebol, tudo pode acontecer. O Brasil pode ganhar e depois ser campeão do mundo.

Predições Médicas e Futebolísiticas


Medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade. 

Quando estamos diante de um ambiente com alto grau de incerteza (futebol e medicina), modelos probabilísticos são menos acurados. O problema é que os modelos mentais tornam-se ainda menos acurados. Ou seja, em um mundo instável, a preferência por modelos matemáticos (em detrimento da intuição humana) deve ser ainda mais forte. 

Portanto, em situações prognósticas incertas, clínicos devem se munir de modelos multivariados que retornem a probabilidade de um evento ocorrer. Assim como comentaristas esportivos devem confiar menos em suas opiniões e usar um pouco mais de estatística. 

Mas também devemos estar cientes de que esses modelos não nos dão certeza, apenas uma resposta probabilística. 

O estatístico americano Nate Silver desenvolveu um modelo probabilístico baseado no histórico de décadas de copa do mundo e também no histórico dos atuais jogadores de cada seleção. Neste modelo, o Brasil tem 30% de probabilidade de se tornar hexacampeão. 

Puxa, apenas 30% ? 

Apenas não, pois o Brasil é o favorito, a seleção com maior probabilidade de ser campeão, seguida pelos 15% da França. No início da copa o Brasil tinha 19%, mas claro que com a progressiva eliminação de seleções, essa probabilidade vai aumentando. 

E então, devemos ficar otimistas ou pessimistas?

Otimistas se pensarmos que somos a seleção mais provável de ganhar, porém pessimistas se pensarmos que é mais provável perder a Copa do que ganhar. 

Podemos dizer que temos 30% de probabilidade de ganhar ou 70% de probabilidade de perder. Frases de mesmo significado, porém de um impacto bem diferente em nossas mentes. 

Este fenômeno psicológico de valorização de uma probabilidade com base na forma como esta é explicitada ocorre igualzinho em medicina. Escolhas de pacientes e de médicos variam substancialmente de acordo com a forma como as coisas são colocadas. Se o enfoque é no ganho ou na perda.

Em um tipo de câncer de pulmão, cirurgia é um tratamento que promove melhor sobrevida do que radioterapia. Porém cirurgia tem o inconveniente do risco do procedimento. Esta é uma situação ideal para testar o viés de aversão à perda.

Em um clássico estudo, investigadores dividiram pacientes em 2 grupos. O primeiro receberia a informação de que 90% sobrevivem à cirurgia versus o segundo grupo que ficou sabendo que 10% morrem na cirurgia. No primeiro caso (enfoque no ganho - sobrevida), 82% dos entrevistados optaram pela cirurgia, comparado a apenas 56% de opção pela cirurgia no segundo grupo que enfocava risco (perda).

E assim nós vamos tomando decisões, sem perceber a influência do irracional de nossos vieses cognitivos. Nossas escolhas não são tão racionais quando achamos ser.


E o Brasil na Copa?


Sugiro o viés do otimismo. Copa do Mundo serve para nos distrair por um mês a cada quatro anos. Pelo menos um mês de diversão depois de inúmeros meses de notícias políticas, econômicas e judiciais bombásticas. 

Arrisco dizer que seria bom para o Brasil sermos campeões. Pois economia é influenciada por otimismo e nada como uma dose de otimismo político-econômico mediada por um engano cognitivo vindo da sensação de campeões do mundo. Pode ser que haja uma influência maior do que pensamos. Ou pode ser que não haja, mesmo assim seria uma alegria momentânea.

Sendo assim, concluo: é melhor pensar que temos 30% de probabilidade de sermos campeões, o dobro da probabilidade da França! E temos 62% de probabilidade de ganhar da Bélgica na sexta-feira, segundo Nate Silver.

Por outro lado: caso a gente não seja campeão, não precisamos inventar causas específicas, apenas nos lembrar que tínhamos 70% de probabilidade de perder a copa do mundo. 

Assim, aproveitamos do otimismo a priori e da serenidade a posteriori. Essa é minha sugestão para os “milhões em ação” da torcida brasileira: futebol baseado em evidências

E sexta-feira tem mais ...

17 comentários:

  1. Muito interessante comparação entre futebol e medicina.
    É necessário dosar o peso de um amistosos contra a Áustria com jogos de copa do mundo contra adversários de maior qualidade ao analisar a performance de Neymar. É muito comum comparar a performance de um atacante somente pelo números de gols, dribles e assistências que executou, mas o primordial (e subjetivo) é quanto ele colaborou para vitória do time, um drible ou um passe a mais pode tirar ou dar uma oportunidade de gol. Um ataque que faz muitos gols mas não ajuda na marcarção pode ser menos eficiente para vitória do que um ataque que faz 1 gol por partida, depende da qualidade da defesa, do qualidade do ataque do adversário e tipo de jogo proposto pelo técnico. Para o técnico Tite, Grabiel de Jesus está sendo mais útil para o time do que seria Firmino... Para mim só pelo Neymar não ter reclamado tanto e não ter levado cartão amarelo já melhorou bastante, o cai-cai e o indiviualismo são outros fatores que melhoraram (um pouquinho).
    "O futebol é uma disputa de gols, e não de estética. Adoramos quando os dois elementos estão juntos, mas este não é obejtivo primordial do esporte" (Richard Williams).

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  2. Sensacional Luis !!.....quando o pensamento científico encontra uma paixão nacional e muda toda sua perspectiva de comentários e previsões que estamos cansados de ficar vendo . lendo e ouvindo.....Parabéns pelo texto ! Grande abraço .

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  3. 30% entre 8 seleções me parece um bom número, mas me anima mais em saber que seremos mais favoritos ainda se passarmos do uruguai (acho que vencerá a França com seus 38% de probabilidade de avançar pra semi final). E se enfrentarmos uma Rússia na final, ai deve ir pra quase 100%, afinal, a Rússia contar com o acaso em tantos jogos seguidos não dar neh kkk.

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  4. Caro Luís Cláudio, como sempre impecável em suas reflexões. Eu particularmente não sou muito fã do futebol, mas me diverti com suas colocações, afinal Copa é momento de alegria. É interessante que em jogo recente entre Argentina e Nigéria, o comentarista (e ex-jogador Roger), atacava e expressava críticas duras ao futebol Argentino. Creio que Maradona “invocou a Deusa da Probabilidade”, e a Argentina virou o jogo de forma magistral em 2 x 1. Após o segundo gol, nosso comentarista “baseado em emoção”, passou a elogiar o futebol e a excelente partida do time argentino, justificando que o problema seria o cansaço do time nigeriano e a emoção da torcida Argentina (calma Roger, nem tanto...). Na outra semana, com o passar da copa, assisti no tempo livre aos comentários na Sportv e ESPN, e vi as mais diversas “justificativas” e opiniões para os resultados dos jogos do Brasil e o desempenho do nosso atacante Neymar. Os ditos especialistas, repletos de jargões e viéses cognitivos (muitos tem preferências pessoais de jogadores), explicando suas interpretações e o porquê dos resultados. Senti falta de uma real análise estatística, e da matemática tão utilizada em jogos como beisebol (o qual sempre assisto) e futebol americano. Sites como o https://www.dratings.com/predictor/mlb-baseball-predictions/ sempre são citados pelo poder estatístico razoável nesse tipo de jogo. Um filme excelente que mostra o poder da análise estatística nesses jogos é Moneyball, com o Brad Pitt. Claro, que esses jogos apresentam maior número de desfechos e não são preenchidos por tanto “acaso” como ocorre no futebol com um gol contra ou um “frango não intencional”, e estes por sua vez criam a famosa “zebra”. Você nos traz um site muito interessante sobre análise probabilística e de um bom prognóstico para copa, agradeco, vai me ajudar em um eventual “bolão”, resta “chutar” o placar!
    Até sexta! Um abraço

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  5. Caro Luis, parabéns pela análise à luz da Ciência! Com certeza, um olhar à margem das “paixões” de torcida.
    Go ahead...

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  6. Dois temas cotidianos: saúde (pra quem se insere na área) e futebol - e, ainda assim, inconscientemente, sinto que insistimos em não enxergar os paralelos que vão se traçando entre as teorias dos dois. Ainda no primeiro momento do texto, me surgiu: as táticas de jogo e as condutas clínicas: quão dessemelhantes? (não sei se o viés de estar ouvindo Caetano Veloso na hora atuou).
    Não sendo um expert em futebol, mas um entusiasmado com o Mundial, o que me ficou aguçado o tempo todo nessa leitura foi: assim como um fã do esporte que critica um técnico após um empate ou coloca em holofotes um jogador após um único gol, o quanto nós, os profissionais de saúde, deixamo-nos seduzir por resultados imediatos? Perigoso. Infelizmente, muito mais cômodo também não aceitarmos tudo isso e nos colocarmos, em certo ponto de forma comodista, na posição de questionarmos os “se” de cada jogo (ou de cada conduta).
    Sigo acreditando que, assim como no mundial, em que tendemos a focar muito mais em um momento - a exemplo das críticas ou elogios pós resultado de uma única partida - do que avaliar o campeonato como um todo, as condutas clínicas ainda tropeçam demais no modus operandi cognitivo. A instabilidade de hoje, como referido no texto, no futebol ou na medicina, é - e sempre será - enorme. Faz parte da essência dos dois. Porém, uma coisa me soa primordial então em questionar: o quanto estamos preparados pra os tais modelos matemáticos? Ou melhor, quanto ainda precisamos (e como iremos) desconstruir - mas não totalmente - a sedução da mente intuitiva?
    Nisso, de tornar mais palatáveis essas discussões e analisarmos, repensarmos e construirmos os dois modelos, vejo também todo esse texto como uma grande ferramenta de ensino. E o ensino aqui não se destina só ao estudante de graduação, mas o médico, o profissional de saúde que se coloca “em campo” nas partidas diárias. Cruzar esses dois campos entre os conceitos epidemiológicos e estatísticos pode ter um efeito extremamente benéfico e importante na aproximação desses temas pra um campo prático e também pra quebrar mais a barreira de que todos eles são de compreensão “inatingível”, sobretudo quando ainda o jogador tá se iniciando, lá na graduação.
    Acredito ficar também um outro exercício pra tentar ser posto em prática: nós, enquanto entusiastas do olhar crítico-científico, buscarmos ver ele (ou suas similaridades) no cotidiano que nos cerca. A beleza de tudo isso fica não somente em constatar que o futebol, assim como a Medicina, é orquestrado pela imprecisão, mas que o acaso - e todo o olhar probabilístico - se coloca na nossa frente mais do que podemos calcular.

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  7. Acredito que sua análise esteja bem precisa.Futebol é um jogo totalmente imprevisível. Já dizíamos que a Copa no Brasil seria nossa... Ninguém previu que a Alemanha que foi nossa vice em 2002,destruiria o Brasil em 2014... Tudo e qualquer coisa pode acontecer em Campo. Ate podemos vencer ☺️. OnriObri pela leitura.

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  8. Divertido e concreto. Ótimo texto.
    Saudações.

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  9. Muito bacana Luis Cláudio. Essa análise me lembrou o livro Os Números do Jogo (de Chris Anderson e David Sally).
    Aproveito o espaço para compartilhar algumas estatísticas e curiosidades da Fase de Grupos dessa Copa:

    https://www.institutoguimaraes.com.br/single-post/2018/06/29/Estatisticas-da-Copa-Fase-de-Grupos

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  10. Mais otimista apos esse interessante texto!

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  11. Adorei o texto, de fato o mais sensato num país de tantas decepções é buscar evidências que consigam sustentar expectativas positivas frente à vida.
    A crença é o fator energético que nos impulsiona a buscar,e uma crença sustentada por evidências adquire estatus de certeza.

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  12. Me pergunto quantos de nós entedemos a Medicina como "a ciência das incertezas". Mas sigamos o baba (já que o assunto também é futebol), lendo mais MBE para entender melhor esse universo que nos cerca. E mesmo torcendo por mais modelos matemáticos norteando nossas condutas, no futebol torço pela alegria momentânea do acerto, mesmo que ao acaso.

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