domingo, 12 de junho de 2011

Telefone Celular, Câncer e os Alarmistas


Na semana passada, a principal notícia da imprensa leiga a respeito de saúde foi a possível relação entre telefone celular e câncer cerebral. Ao assistir longas reportagens no Jornal Nacional e na CNN, me questionei: qual o embasamento científico a respeito disso? Existem estudos?

Sim, existem vários estudos, portanto precisamos analisar a totalidade das evidências para chegarmos à conclusão. O tipo de estudo que nos fornece evidências a este respeito desse assunto têm o desenho de caso-controle. Sabemos que o ideal para se avaliar fatores de risco são estudos de coorte, mas esses são impraticáveis para doenças de baixa incidência. Como câncer de cérebro não é uma doença muito comum (tal como câncer em geral ou doença cardiovascular), centenas de milhares de pacientes teriam que ser seguidos prospectivamente para que alguns desenvolvessem esse problema. Isso seria impraticável. Nesta situação de raridade do desfecho, se utiliza o desenho de estudo denominado caso-controle. Nesse caso, são identificados pacientes com câncer de cérebro e indivíduos saudáveis. Então se aplica um questionário avaliando como foi nos últimos anos o uso de celular dessas pessoas. Ou seja, os doentes utilizaram mais celular do que os saudáveis?

Então o que dizem esses estudos? A grande maioria não demonstra associação entre câncer e uso de celular. Uma minoria de qualidade metodológica questionável sugere efeito protetor do celular contra câncer. E outra minoria de qualidade metodológica limitada sugere que celular causa câncer. Essas informações estão bem sumarizadas em uma revisão sistemática publicada na respeitada revista Epidemiology em 2009. E para corroborar com o que sugere a maioria das evidências, neste ano foi publicado no respeitado International Journal of Epidemiology o maior dos estudos de caso-controle, denominado INTERPHONE Study. Nesse grande estudo, participaram 13 países, sendo recrutados 2.708 pacientes com glioma, 2.409 pacientes com meningioma e 7.658 controle pareados. Resultado? Não há associação entre celular e câncer na análise primária do estudo. Em outras palavras, celular não causa câncer.

Outra importante evidência a favor da inocência do celular é a ausência de aumento da incidência de câncer de cérebro nos últimos 15 anos, de acordo com estudos de desenho ecológico. No início da década de 90, virtualmente ninguém no mundo usava celular. Na década de 2000, virtualmente todas as pessoas usavam celulares. Viraria uma epidemia de câncer de cérebro. Mas nada foi observado.

Mas porque então surge na imprensa uma notícia como essa? Porque a Organização Mundial de Saúde reconhece a possibilidade do vínculo entre celular e câncer?

Identifico três causas, a serem descritas nos próximos parágrafos:

Primeiro, os alarmistas, pessoas que vivem de assustar as pessoas. Os alarmistas existem em várias áreas, por todo lado. Existem porque uma notícia ruim gera mais impacto do que uma notícia boa. Quando assistimos ao Jornal Nacional, saímos deprimidos, pois o que vemos são 80% de notícias ruins e 20% de notícias neutras ou boas. Mas isso é um viés, o mundo é melhor do que parece aos olhos dos telejornais. É só olhar ao redor. Mas os alarmistas vivem do incêndio, seja por vocação, seja por interesse. Em nossa prática, vemos médicos alarmistas, também chamados de incendiários. Estes são aqueles que supervalorizam o problema de seu paciente, para também supervalorizar a importância de seu tratamento. Indivíduo assintomático, faz teste ergométrico desnecessário, porém positivo para isquemia miocárdica. Daí faz um cateterismo que mostra obstrução em apenas uma artéria. O médico alarmista diz ao paciente que ele pode ter um infarto ou morrer, portanto precisa fazer uma angioplastia. O médico científico diz que a angioplastia não reduz infarto, nem reduz probabilidade de óbito, então o que o paciente precisa é controlar seus fatores de risco. Qual médico parece mais importante aos olhos de mentes superficiais? O alarmista, é claro. Esse aparentemente resolveu o problema do paciente de forma mais ativa. Este é um simples exemplo do benefício pessoal de ser alarmista.

Segundo, a mente humana tende a ser crédula, por uma questão puramente evolutiva. Isso se explica pela lei da sobrevivência. Há 200.000 anos, o homem vivia em constante perigo. Quando os arbustos na floresta se mexiam, a probabilidade maior era de ser apenas o vento. Mas o homem crédulo achava logo que era um leão se aproximando e saía correndo. Um dia viria a ser um leão de fato. Assim, a mente crédula teve uma maior probabilidade de sobreviver do que a mente cética. Por este motivo, o homem é biologicamente crédulo. É só um alarmista trazer o problema, que logo acreditamos, devido ao medo, ao instinto de preservação. Mas estamos em outra época, não vivemos mais em constante perigo e hoje existe algo denominado ciência. Em ciência, uma idéia só deve ser tornar vigente, quando somos capazes de rejeitar a hipótese nula. Como comentado na postagem anterior, a premissa básica do pensamento científico é a hipótese nula. Só fortes evidências a rejeitam. Não há forte evidência para rejeitar a hipótese nula de que celular não causa câncer.

Terceiro, os politicamente corretos. Essas são pessoas que não têm convicção de que o celular causa câncer, no fundo acham que não causam, mas se posicionam com preocupação, cuidado e falam: ainda não sabemos, por via das dúvidas, devemos aproximar pouco o telefone da cabeça ou usar o viva-voz. Para estes, fico uma frase da Bíblia sempre lembrada por Nizan Guanaes: "Seja quente, ou seja, frio, não seja morno que eu vomito." O certo, sem querer parecer equilibrado é dizer: celular não causa câncer. Até que se prove o contrário, o que é muito improvável.

O telefone celular representou uma das maiores revoluções em comunicação do final do século passado, nos trouxe vários benefícios. Talvez a gente até exagere no uso dessa ferramenta, mas rejeitar a hipótese nula sobre o risco do celular e assumir que este causa câncer com base em estudos de má qualidade metodológica (desprezando os melhores estudos) é um desserviço.

Enfim, não precisamos exagerar no politicamente corretos, nossa mente não precisa funcionar como a dos nossos ancestrais, nem devemos nos influenciar por alarmistas: celular não causa câncer!

11 comentários:

  1. I only have one word: excellent analysis!!!
    Muito bom,Luis!

    Abs

    RD

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  2. Simplesmente perfeito seu texto. É por isso que continuará sendo sempre meu mestre!
    Vou repassar pra um monte de amigos não médicos!

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  3. Parabéns realmente Luis... que nós médicos, aprendamos que não podemos mais viver do que "achamos ser certo", o achismo não é mais possível. As evidências estão aí, só precisamos ir buscá-las (ou acompanhar alguém que as busque)...
    obg.

    Marcia Cristina/Recife

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  4. Ótimo, Luís! Mas vou continuar usando a desculpa do câncer de cérebro quando quiser me livrar de uma ligação longa e chata! Rsrs.
    PNR

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  5. Esta semana meu pai deixou um recorte de jornal para mim sobre este assunto, nao sei porque, talvez ele ache que falo demais no celular..(isto nao esta comprovado, minha conta é baixa); enviei o seu comentario para ele!!gratissima!
    Nila

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  6. Levanto uma questão: vi testes que mensuravam a radiação de acordo com o "grau tecnológico" do aparelho. Os aparelhos dotados de mais recursos, como o útil iphone, "liberavam" mais radiação que os celulares mais simples. E a diferença era de dezenas de vezes. A pergunta então é se esses estudos levaram em conta esta diferença, para evitar um viés de seleção.

    Outra dúvida: estudos randomizados evitam erro tipo II (sistemáticos). Como o estudo caso-controle pode fazê-lo?

    É sempre um prazer ler o Blog.

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  7. Parabéns pelo excelente artigo. Muito bem colocado, brilhante. Só precisa corrigir a frase da Bíblia, o correto é:
    "Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito".

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  8. Flávia Villas-Boas17 de junho de 2011 00:18

    Excelente o texto! Graças a Deus ainda existem mentes pensantes, senão o mundo seria muito chato ...! Mas até que um uso mais restrito do celular não ia "cair" mal. Só de pensar no tanto de ligações para responder depois de um turno cirúrgico...

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  9. Texto excelente de credibilidade. Vou divulgar este blog para muitas pessoas acabarem com estes "achismos". Deborah Bittencourt

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  10. Parabéns pelo blog!

    Aproveitando o tema dos celulares, acha que é possível que jornalistas se pautem por evidências para suas matérias? Conhece algum serviço ou experiência deste tipo?

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  11. Ok. Não dá pra dizer que o artigo foi "brilhante", apenas sóbrio e isso já basta. É necessário entender bem os métodos estatisticos aplicados, bem como considerar a possibilidade de falhas na aplicação (parece que houve algo de errado). Faltaria, em outro momento, estudar o impacto das torres de transmissão, seja de rádio ou de telefonia.

    Publique os dados e faça a análise vc mesmo, sem repetir conclusões alheias. Deduza as informações após conferir os processos de tratamento, calibragem e refinamento das informações.

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